Do trompete ao sax soprano
Aos setenta e seis anos, soprando um sax soprano [o músico verdadeiro conjuga o verbo tocar], me vejo portando as mesmas características de há meio século atrás
Aos setenta e seis anos, soprando um sax soprano [o músico verdadeiro conjuga o verbo tocar], me vejo portando as mesmas características de há meio século atrás, quando soprava [insisto no verbo] trompete, depois de uma fase inicial marcada pela trompa. Igual, igual. Disciplina, esforço, a dependência a partitura em dose maior, sem o quê não dou um passo a frente. É certo que o fôlego diminuiu. Em compensação, o entusiamo aumentou, principalmente quando me vejo diante de partitura de música conhecida e acompanho a letra no som produzido, deixando as notas agudas mais agudas ainda. Alguns sambas, poucos boleros, raras valsas, o mesmo digo dos tangos, frevos escolhidos a dedo, marchas carnavalescas que me fazem ouvir o som do trompete em diversos bailes, ao lado de colegas da banda, bailes dos quais participei em idos pretéritos. Abro um espaço para incluir o chorinho, que passou ao largo na fase do trompete. Já me arrisquei em um, que me chegou as mãos como o mais fácil. Mas, ainda engatinhando. No jazz, me falta o ritmo. Em verdade, eu sou com o sax soprano o que fui com o trompete. Evolução, zero. Página dobrada que carrega a marca pelo resto da vida.
Os tempos, outros. Nos da trompa, e, após, do trompete, participava de uma banda. Procissão, retreta na praça, homenagem a autoridade recebendo o título de cidadão, tocando [não encontrei outro verbo] sem a partitura, por se cuidar de dobrados que faziam parte dos ensaios, duas vezes por semana, apadrinhado pela pouca idade, arquivo do cérebro ainda vazio, só os conhecimentos emanados do ginásio, das leituras extras, do que já começava a rabiscar. Tudo favorecia a memorização. O Hino Nacional executava sem a partitura quando a banda ia a rua.
Hoje, vida alterada. O soprano é galho. Não é tronco. Há outros matagais esperando a presença da foice e enxada, para cortar erva daninha que teima em crescer. E uma floresta a desafiar exploração. Tudo bem diferente. Até o peso do instrumento. O trompete, leve. O soprano, nem tanto. Se não executo tudo quanto desejaria, pelo menos, não corro o risco de ser desafiado para uma apresentação pública. Fico limitado ao meu gabinete, onde sou o rei e faço o que acho conveniente. Não há ninguém para me corrigir, … nem para aplaudir. Assim prossigo.
Vladimir Souza Carvalho - Membro das Academias Sergipana e Itabaianense de Letras