O Fantasma de Átila na Copa de 2026
Vencida, a nossa seleção caiu, tentando, em vão, abraçar os joelhos do vencedor
A imagem do jogador vista na TV, erguendo os braços trêmulos para o alto em desespero e aflição, diante de uma torcida de camisa amarela já entregue ao desânimo, ecoava a angústia final de Átila, o Huno. Na Batalha dos Campos Cataláunicos, (451 d.C.), o temido "Flagelo de Deus" viu seu império ruir diante das forças romanas e visigodas. Diante do colapso iminente e da perda de esperança, Átila abandonou a estratégia de um combate fracassado para clamar aos seus comandados, agitando os braços num frêmito de agonia em um último e inútil apelo — cena imortalizada no filme "Attila" (1954), dirigido por Pietro Francisci, estrelado por Anthony Quinn e Sophia Loren. Pense na tentativa de comandar o nada: o fim patético de uma triste campanha. Assim como os soldados hunos viram seu líder clamar ao vazio, os torcedores enxergavam naquele atleta brasileiro o colapso de uma trajetória que custou uma soma fabulosa de dinheiro, talvez inédita na história nada exemplar da CBF. (Os dados alarmantes compõem um quadro nefasto da CBF. Tem cinco presidentes presos ou afastados nos últimos sete mandatos). A torcida, antes barulhenta, assistia impotente ao sepultamento de seus desejos. Aquele milésimo de segundo de insegurança e desespero — imperdoável em uma partida tão crucial —, materializado nas mãos estendidas do jogador, foi o suficiente para o torcedor. Para quem assistia aquela imagem, a fratura de um único instante, bastava para ter a certeza de que o castelo de cartas desabava; a taça de ouro já parecia uma quimera.
Vencida, a nossa seleção caiu, tentando, em vão, abraçar os joelhos do vencedor.
Na "Ilíada" de Homero, as mãos de Aquiles são chamadas de "áaptous" (irresistíveis, intocáveis). Em contraste, as mãos estendidas no jogo de domingo, 5 de julho, refletiram o ápice de uma história que deveria ser investigada, à luz das denúncias da revista Piauí. Foi um desfecho previsível para muitos, fruto de uma campanha que, embora bilionária, foi mal construída e mal conduzida do começo ao fim. Todos os nossos esforços e trabalhos foram desperdiçados inutilmente, como areia que escapa por entre os dedos. Fomos vencidos não apenas pelos adversários, mas pela nossa própria fraqueza. Como está escrito na "Eneida" de Virgílio, quando Eneias vê Troia perecendo: “Fomos troianos, existiu Troia e a imensa glória dos teucros; a nossa imensa glória foi reduzida a pó”.
Houve, porém, o conforto milagroso de uma outra face dessa história. Valeu a pena pela alegria que proporcionou ao povo brasileiro — mesmo antes da bola rolar, antes da festa que tanto agrada aos deuses dos esportes, houve uma explosão de sentimentos que transformou o gramado e a arquibancada em um espetáculo de pura energia. Foi uma emoção contagiante ver um torneio unir gerações. O clima festivo irradiava de dentro de casa, das ruas, dos bares e dos estádios. O Brasil vestiu uma só cor.
Para entender melhor o que foi essa Copa para os brasileiros, recomendo a leitura da crônica de Maurício Rands ("Diario de Pernambuco", de 05 de Julho), e o texto de Maria Tânia Carneiro Leão, na mesma data nas suas redes sociais.
Marcus Prado - Jornalista