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Compreender as compulsões é parte do cuidado em saúde mental

A dificuldade de resistir a determinados impulsos pode ultrapassar o campo dos hábitos cotidianos e passar a interferir diretamente na saúde mental

Por Alberto Gorayeb

Por Alberto Gorayeb
Psiquiatra do IMIP

Durante muito tempo, comportamentos compulsivos foram vistos apenas como “falta de controle”, exagero ou ausência de disciplina. No entanto, a psiquiatria já compreende que compulsões envolvem mecanismos psíquicos complexos, frequentemente relacionados ao sofrimento emocional e à dificuldade de lidar com tensões internas.

A dificuldade de resistir a determinados impulsos, seja para comer, comprar, jogar, usar substâncias ou permanecer constantemente conectado às redes sociais, pode ultrapassar o campo dos hábitos cotidianos e passar a interferir diretamente na saúde mental.

É importante diferenciar impulso e compulsão. Ambos envolvem falhas na capacidade de controle, mas funcionam de maneiras distintas. O impulso costuma acontecer antes mesmo que a pessoa consiga organizar racionalmente a ação. Já a compulsão está associada à incapacidade de interromper um comportamento, mesmo quando ele já produz prejuízo, culpa ou sofrimento.

Em muitos casos, a compulsão funciona dentro de um ciclo de tensão e alívio. A pessoa experimenta um desconforto interno crescente, seja ansiedade ou angústia, e encontra naquele comportamento uma forma rápida de aliviar temporariamente esse mal-estar. O problema é que esse alívio costuma ser passageiro. Pouco depois, surgem sentimentos de culpa, vergonha ou frustração, que acabam alimentando novamente o ciclo compulsivo.

Vivemos hoje em uma sociedade marcada pelo excesso de estímulos e pela oferta permanente de mecanismos de recompensa imediata. Isso ajuda a explicar por que determinados comportamentos compulsivos têm se tornado mais frequentes e mais naturalizados socialmente.

As compulsões podem aparecer de formas bem diferentes. Entre as manifestações mais comuns estão a compulsão alimentar, as compras excessivas, o jogo patológico e o uso abusivo de redes sociais. Em parte dos casos, esses comportamentos também estão associados a outros transtornos mentais, como ansiedade, depressão, Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) e outros transtornos do neurodesenvolvimento.

Por isso, o tratamento não deve se limitar ao controle isolado do comportamento. É necessário compreender o que sustenta aquele sofrimento. Existem abordagens terapêuticas validadas que envolvem psicoterapia, mudanças no estilo de vida e, em alguns casos, acompanhamento medicamentoso. Mas o cuidado só faz sentido quando busca tratar a origem do adoecimento, e não apenas silenciar sintomas.

Outro ponto importante é combater a ideia de que compulsão representa fraqueza moral, compreensão esta que aumenta o sofrimento e dificulta a procura por ajuda. Muitas pessoas convivem durante anos com sintomas compulsivos sem reconhecer que estão diante de uma condição que pode e deve ser tratada.

O primeiro passo é observar quando determinado comportamento deixa de ser escolha e passa a produzir perda de controle e prejuízo emocional, financeiro, social ou afetivo. Nesses casos, procurar ajuda profissional é fundamental. A rede pública de saúde, por meio das unidades básicas e dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), oferece portas de entrada importantes para acolhimento e acompanhamento.

Falar sobre compulsão sem julgamento talvez seja uma das formas mais necessárias de cuidado atualmente. Quanto mais ampliamos nosso entendimento sobre saúde mental, mais pessoas conseguem reconhecer o próprio sofrimento e buscar apoio antes que ele se torne ainda mais silencioso.