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A goleada que não dói

Perdemos num jogo muito mais antigo, que não tem transmissão pela TV e nem narrador empolgado. O jogo da convivência

Por Ricardo Lapenda

Brasil x Japão na Copa do Mundo 2026

 O juiz apita. Nós ganhamos. Bola na rede, hexa no peito, a alma verde-amarela vibra. Nas mesas de bar e nas redes sociais, a soberba momentânea nos faz esquecer que, no dia seguinte, a vida real cobra seu placar.

E é aí que a gente percebe: perdemos de goleada. Mas não no futebol. Perdemos num jogo muito mais antigo, que não tem transmissão pela TV e nem narrador empolgado. O jogo da convivência.

Os japoneses têm uma gentileza que não é ensaiada. Não é o "bom dia" robótico do manual de etiqueta. É o arco-íris de uma reverência ao motorista que para na faixa. É o silêncio no metrô, onde cada um respeita o espaço do outro como quem respeita um templo. É devolver a carteira achada no chão com o dinheiro intacto, como se a honestidade fosse um reflexo, não uma escolha.

Nós, brasileiros, temos o coração quente e a mão estendida. Somos mestres no improviso, na gambiarra afetiva. Mas nossa gentileza, muitas vezes, é condicional: é gentil com quem conhece, com quem sorri primeiro, com quem é da nossa tribo. A rua, para nós, é um campo de batalha onde cada um luta por seu centímetro. O trânsito é uma selva, e a fila do banco, uma guerra de nervos.

Quanto à segurança, então, é goleada sem piedade. Lá, uma criança de oito anos anda sozinha de trem para a escola. Aqui, um adulto cruza a rua com o celular escondido na cueca. Lá, a polícia é vista como amiga. Aqui, como um mal necessário, quando não temível.

Mas tem um detalhe nessa goleada que pouca gente nota. E é aí que mora o ouro.

Em Tóquio, numa rua estreita que mal cabe duas pessoas, vi uma senhora de quimono andar com a bolsa escancarada, a carteira à mostra, como quem exibe uma flor na janela. E me dei conta: não é só que eles podem andar. Eles andam. Em ruas largas de avenidas, em vielas que viram rios humanos nos horários de pico. Andam com a corrente de ouro no pescoço, o relógio caro no pulso, o celular na mão — não escondido, não agarrado com medo, mas solto, como um objeto qualquer. Andam como quem respira: sem calcular a distância do outro, sem ensaiar um golpe se alguém encosta.

Isso é impagável. Não tem preço, não tem troco, não tem seguro que cubra.

Porque andar, para a gente, no Brasil, é um ato de guerra tática. A bolsa vai na frente do corpo. O celular, quando usado na rua, é com o cotovelo colado e os olhos vigiando a esquina. A corrente de ouro? Essa a gente já aprendeu: ou não usa, ou esconde sob a gola. Andamos como se a rua fosse um campo minado, e cada passo, uma negociação com o perigo.

Lá, eles andam como quem passeia na própria sala. A multidão não é ameaça, é paisagem. O silêncio não é medo, é respeito. E essa liberdade de simplesmente existir no espaço público, sem o peso constante da desconfiança, é um luxo que não se compra com PIB nem com tecnologia.

É a goleada mais silenciosa de todas: a deles é uma rua que acolhe. A nossa, uma rua que desconfia.

Não é sobre ser melhor ou pior. É sobre escolhas civilizatórias. Eles construíram uma sociedade onde o coletivo fala mais alto. Nós, uma onde o indivíduo, com seu jeito único, é a medida de todas as coisas.

Por isso, enquanto comemoramos o gol nos últimos minutos , eles comemoram, em silêncio, o trem que chega na hora exata, a rua limpa e o vizinho que não faz barulho. Nossa vitória no futebol é nossa alma pulsando. A deles no dia a dia é a alma deles em paz.

No fim, cada um vence onde plantou. Nós, nos gramados. Eles, na calçada.

Mas sabe o que eu penso, olhando aquela senhora de quimono? Que ela não sabe, mas o que ela tem de mais valioso não está na bolsa aberta. Está no passo solto, no ombro relaxado, no olhar que não precisa olhar por cima do ombro.

Nós ganhamos no futebol, sim. Mas eles, toda manhã, ganham o direito de caminhar como quem não teme. E isso, meu amigo, é o ouro que não se rouba. É a paz que não se negocia. É o placar que a gente nunca vai virar, mas que pode, quem sabe, um dia, começar a empatar.

Porque existe uma beleza triste em saber que, para eles, a vida é uma cerimônia. Para nós, é um carnaval. E talvez, o placar final da existência não esteja nem num nem no outro, mas no quanto conseguimos aprender a ser, como eles, um pouco mais serenos, sem deixar de ser, como nós, tão apaixonadamente nossos.

E que a gente, um dia, possa andar de corrente no pescoço — não por falta de perigo, mas por sobra de confiança no outro. Essa, sim, seria a maior virada de todas.

Ricardo Lapenda - Procurador do Ministério Público do Estado de Pernambuco