De lances e de perseguição
Mané barraca jogava e ao mesmo tempo apitava a partida. Polivalente antes de Cláudio Coutinho consagrar o termo
Mané barraca jogava e ao mesmo tempo apitava a partida. Polivalente antes de Cláudio Coutinho consagrar o termo. Em um jogo, deu uma entrada violenta em jogador do time adversário. Sentiu que exagerou. Não vacilou. Anunciou, bem alto: Estou expulso. Fico só como árbitro. Já Divo, zagueiro direito, ex-combatente, alto, magro, era o único jogador do time que, fosse em partida oficial ou em treino, ao derrubar um jogador do outro time, não dava a mão para ajudá-lo a levantar-se. A justificativa vinha da guerra, na Itália: não se dá a mão a inimigo. Nunca acordou-se para verificar que a guerra ficou lá atrás. Nilo base avançando na ponta esquerda, perto da área do time visitante, sapecou o chute em direção ao gol. A bola pegou a altura de um metro. O goleiro pulou. A bola bateu na rede. Gol! O Itabaiana vencia. Encerrada a partida, Renato Mazze Lucas invade o campo e corre para abraçar Nilo. Que gol, Nilo, que gol!. Observação do artilheiro: Pois é, doutor. Fui centrar e errei. Suprema inocência.
O Itabaiana, numa partida em Capela, passa por Riachuelo para pegar um atleta. No jogo, pênalti a favor do Itabaiana. O técnico indica o riachuelense para ser o batedor. Indicação recusada: Não sou de Itabaiana, não pertenço ao time, sou preto. Se perder, vão dizer que estou comprado. Mande alguém de casa bater. Assim foi feito. Em Neópolis, numa pensão, pela manhã, o time do Itabaiana descansando da longa viagem de ônibus, jogo no período da tarde, um atleta fez questão de comer uma feijoada. Empanturrou-se, apesar das advertências que os outros fizeram. Não deu bolas. No momento do jogo, que era mais cedo, à míngua de iluminação no campo, na primeira corrida que deu, sentiu-me mal. Foi substituído.
Já no século atual, conversei com um atleta do time campeão da zona centro. 1959. Dutra. Perguntei-lhe como era o esquema tático, na transposição da bola da defesa para o ataque. Ele me olhou desconfiado. Expliquei. Resposta dada: não tinha nada disso. A gente chutava a bola para a frente. Quem pegasse, pegou. Assim mesmo. Velhos tempos. O Itabaiana, mero integrante do campeonato, não incomodava ninguém. Quando começou a contratar, despertou a atenção. Aí foi perseguição de todo lado, não só da federação, como também da imprensa.
Vladimir Souza Carvalho - Membro das Academias Sergipana e Itabaianense de Letras