Virada inédita, queda histórica na abstenção. "Tem o dedo de Deus", grifa Lula
Em eleição marcada por ineditismo, o presidente, ao discursar, recordou suas origens de metalúrgico, mencionou queda nas abstenções, grifou ter sido o primeiro a virar nas corridas pelo Planalto, recorreu à fé e retomou pauta da Segurança Pública
De virada, entre o primeiro e o segundo turno: o movimento é inédito na história das eleições presidenciais brasileiras. O resultado se deu após uma prorrogação do horário de votação, também inédita no País. Pela primeira vez, um presidente conquista quatro mandatos pelo voto direto no Brasil. Ao mesmo tempo, o petista quebrou seu próprio recorde: obteve a maior votação em números absolutos da história presidencial brasileira. Com 64.256.232 (51,79%) milhões de votos, Luiz Inácio Lula da Silva superou a marca que havia alcançado em 2022, quando recebeu 60,3 milhões no segundo turno.
A queda significativa na abstenção, entre o dia 4 de outubro e este domingo (25), também é considerada sem precedentes. O índice recuou de 21,08% para 19,21%, o que representa aproximadamente 3 milhões de eleitores a mais nas urnas. Detalhe: a diferença entre o mandatário do Planalto e o adversário Flávio Bolsonaro foi de 4.430.191 votos. O senador obteve 59.826.041 (48,21%). Brancos e nulos também diminuíram. Reduzir abstenção estava entre as principais metas da campanha do petista para este segundo turno assim como conquistar os votos dos indecisos, sobretudo das mulheres.
Ontem, o resultado ainda nem havia sido anunciado formalmente quando Lula, usando óculos, cujas lentes eram estrelas vermelhas, chorou emocionado, abraçou e beijou Janja no salão do hotel InterContinental, em São Paulo. Ao lado, se encontrava o presidente nacional do PSB, João Campos, uma das lideranças pernambucanas que acompanharam a apuração ao lado do petista. Além dele, estavam em São Paulo: Teresa Leitão, Humberto Costa, Marília Arraes, Wolney Queiroz, Luciana Santos e Rosa Amorim.
Prestes a completar 81 anos nesta terça-feira (27), Lula recordou as origens e agradeceu, atribuindo a vitória também à fé. “Tem o dedo de Deus na minha cabeça, eu sempre acho!”, afirmou. Antes, questionara: “Por que eu?”. Também ressaltou sua trajetória como “metalúrgico”, “sem diploma universitário” e, ainda assim, “eleito quatro vezes” presidente.
“Não fui eu e o (Geraldo) Alckmin que ganhamos essas eleições, foi a honradez, o nacionalismo, a democracia e o futuro que vocês querem para os filhos de vocês que fizeram a gente ganhar. Foi a primeira vez que a gente virou, é importante saber”, declarou.
E emendou: “Eu nunca ganhei eleição no primeiro turno, mas nunca perdi no segundo turno”. O resultado contrariou as pesquisas mais recentes. No último sábado (24), Quaest e Datafolha projetaram cenários idênticos: Flávio com 51% dos votos válidos, contra 49% de Lula.
Ao discursar, prometeu um mandato histórico: “Estou com 81 anos de idade depois de amanhã, e quero assumir um compromisso: vou fazer o melhor mandato que um presidente já fez na história desse País”. Também retomou a pauta da Segurança Pública e defendeu maior participação do governo federal no enfrentamento à criminalidade. “O governo federal nunca teve responsabilidade com a Segurança Pública porque a Constituição de 1988 transferiu responsabilidade para os estados. Agora, está provado que os estados não dão conta. Vamos entrar agora!”, avisou.
A PEC da Segurança Pública fora retirada de pauta pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Lula, porém, já sinalizara que, independente do resultado eleitoral, criaria o Ministério da Segurança Pública. “Para o povo trabalhador, a gente vai dar proteção. Para o bandido, prisão!”, prometeu. Flávio Bolsonaro não reconheceu o resultado e anunciou que pedirá a anulação da eleição, embora sua campanha também tenha solicitado a prorrogação do horário de votação à Justiça Eleitoral.
Presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques telefonou para os dois candidatos para cumprimentá-los e classificou a vitória de Lula como "expressiva". E enalteceu: “Sua trajetória política atravessa diferentes períodos da história democrática brasileira. Participou, como candidato, em oito eleições”. Esta, marcada por tantos ineditismos, conforme o próprio Lula sinalizara, foi a última.