Negar o ajuste fiscal só aumenta o seu custo
Promessas da campanha de Flávio Bolsonaro empolgam Faria Lima, mas são desmentidas por Adolfo Sachsida, seu coordenador econômico. Quem está sendo enganado?
Ao mercado, a campanha promete um ajuste fiscal tão duro quanto necessário. Segundo fontes ligadas à campanha, a equipe econômica estuda um pacote de 2% do PIB, cerca de R$ 250 bilhões, com foco nas despesas obrigatórias. Traduzindo para o mundo real, isso significa desvincular da receita corrente líquida o gasto obrigatório com saúde e educação e interromper a dinâmica de aumento dos gastos com previdência. A Bolsa gostou. Desde o primeiro turno, o Ibovespa passou dos 200 mil pontos e o dólar caiu para menos de R$ 5.
Ontem, contudo, veio o desmentido. Flávio garantiu reajuste das aposentadorias acima da inflação e pediu que o aposentado não caísse na “fake news do PT”. Já tinha prometido manter os pisos de saúde e educação e não desvincular benefícios do salário mínimo. Adolfo Sachsida, coordenador econômico da campanha, foi além: prometeu fortalecer Bolsa Família e BPC, reduzir impostos e não tocar em Banco do Brasil, Caixa e Petrobras. O ajuste, disse, será “focado nos excessos do governo”, com redução dos ministérios e combate aos supersalários.
Cortar privilégios é necessário por imperativo moral. Mas não chega nem perto do esforço fiscal necessário. Previdência, BPC e pisos constitucionais são o grosso do gasto obrigatório. Se ficam intocados, a conta não fecha. Então, quem está sendo enganado? O investidor ou o aposentado?
O Brasil já passou por ciclos de ajustes fiscais em diferentes contextos. Um exemplo foi a reforma da previdência implementada no governo Bolsonaro. Amadurecida no debate público desde o governo Temer, contou com apoio popular e foi aprovada no Congresso sem maiores traumas. Apesar de enfraquecida por privilégios para militares, demanda do próprio Bolsonaro.
Em 2014, Dilma Rousseff jurou na campanha que não faria cortes “nem que a vaca tussa”. Reeleita, chamou Joaquim Levy, conhecido como mãos de tesoura. O ajuste contrariou a promessa eleitoral e teve um déficit de legitimidade. Dilma não terminou o governo.
É aí que mora o custo da negação. Ajuste escondido na campanha vira estelionato eleitoral no governo. E presidente que contraria o que prometeu queima capital político quando mais precisa dele: na negociação com o Congresso. Isso encolhe o potencial do ajuste, atrasa ou inviabiliza. A conta é paga por juros mais altos para a rolagem da dívida.
Em campanhas, a prioridade é ganhar. Compreensível. Mas a democracia exige transparência. O eleitor tem direito de saber no que está votando. E deve ser tratado como adulto, capaz de compreender a necessidade de arrumar a casa. Ou preferir a irresponsabilidade.
Apostar no discurso duplo é querer governar enganando, seja a Faria Lima ou o aposentado. A pior hipótese é que sejam os dois. E o governo acabe paralisado muito cedo, sem ajuste e sem legitimidade.