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Lufthansa adquire quase metade da TAP e deverá impulsionar voos ao Brasil

Hoje, nenhuma companhia europeia chega perto da presença da TAP no país

Por Igor Pires

Comprando participação da companhia aérea portuguesa TAP, o grupo alemão Lufthansa adquirirá acesso instantâneo ao maior mercado da América Latina através da companhia portuguesa: o Brasil.

Comprando participação da companhia aérea portuguesa TAP, o grupo alemão Lufthansa adquirirá acesso instantâneo ao maior mercado da América Latina através da companhia portuguesa: o Brasil.

Hoje, nenhuma companhia europeia chega perto da presença da TAP no país. São operações em Manaus, Belém, São Luís, Fortaleza, Natal, Recife, Maceió, Salvador, Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre.

A informação oficial de que o Grupo Lufthansa venceu a disputa contra Air France-KLM para adquirir 44,9% de participação na TAP Air Portugal foi anunciada pelo governo português em 14 de outubro de 2026. A participação total pode chegar a 49,9%. O valor da transação inicial é de aproximadamente R$ 7,2 bilhões.

O Brasil em foco na estratégia da Lufthansa

Historicamente, a América Latina nunca ocupou posição forte na estratégia do grupo alemão Lufthansa. Frankfurt, Munique, Zurique, dos principais hubs do grupo, sempre tiveram como foco principal os mercados da América do Norte e da Ásia, mercados associados a elevados ganhos.

Tanto que, segundo informações do periódico Airline Weekly, a participação do grupo Lufthansa na América Latina é historicamente da ordem de 9% apenas de assentos, enquanto a participação do grupo Air France-KLM, por exemplo, na região é da ordem de 20%.

Assim, o Grupo Lufthansa teria a 6ª pior fatia de mercado na ligação América Latina-Europa, atrás de grupos como Air France-KLM, grupo IAG (British Airways e Ibéria), TAP e Latam.

Buscando um novo protagonismo na região e focando no Brasil, a Lufthansa aposta no maior mercado de aviação comercial da América Latina.

Segundo projeções da maior fabricante de aeronaves do mundo, Airbus, o Brasil chegará perto do número de um viajante por habitante por ano dentro de 20 anos, algo que fará dobrar o número de passageiros que voam no Brasil.

Ainda de acordo com a Airbus, o crescimento mais expressivo será no mercado doméstico (+149%), seguido por rotas para a América Latina (+145%) e rotas internacionais (+121%).

O Brasil teria previsão de atingir 266,3 milhões de passageiros ao ano em 2044, contra 121 milhões em 2024.

Com esse contexto, a Ibéria, por exemplo, que ampliou recentemente voos no Brasil para o Nordeste, informou à Coluna que o Brasil se tornará o país número um para a Iberia na América Latina. A própria TAP cresceu 2 bases no Brasil nos últimos 12 meses.

Por sua vez, para crescer, a Lufthansa poderia passar anos tentando construir uma rede como a da TAP, ou aproveitar a oferta da portuguesa por investidores e simplesmente comprar uma participação na empresa que já domina o mercado ao Brasil.

Na prática, o Brasil ganha relevância inédita com os alemães, maior grupo de aviação europeu.

Lisboa pode se tornar o principal portal europeu para a América do Sul

Imagine um passageiro saindo da Espanha, França ou até de Lisboa para voar com o grupo Lufthansa ao Brasil. Esses viajantes precisarão voar para Frankfurt, Munique ou Zurique para então cruzar o Atlântico.

Assim, como a Alemanha está mais ao norte e a leste que os países mencionados, o passageiro primeiro se afasta do Brasil para depois voltar em direção à América do Sul, acrescendo horas a mais de viagens. Diz-se que o passageiro precisa fazer um backtrack (ou caminho inverso).

Podendo levar o passageiro para Lisboa, tem-se a melhor posição geográfica para se chegar ao Brasil, sem backtrack.

Como se sabe, a capital portuguesa está muito melhor posicionada pela sua posição geográfica natural, para servir como plataforma de distribuição de voos para o Brasil.

Em 2023, com informações do Airline weekly o CEO atual da Lufthansa compartilhou a informação: "Nos falta um hub no sul (da Europa), em comparação com nossos concorrentes europeus, especialmente para o tráfego — de origem e destino — de e para a África e a América Latina", afirmou o CEO do Grupo Lufthansa, Carsten Spohr, no início de maio.

Não por acaso, especialistas do setor entendem que a Lufthansa enxergou Lisboa como esse "hub sul" do grupo, complementando Frankfurt, Munique e até Roma (ITA Airways).

É justamente isso que poderá acontecer agora, o mesmo CEO da Lufthansa, Carsten Spor mencionou que passageiros de Portugal, Espanha, França, enfim, países mais ao norte da Europa poderão deixar de voar dos hubs alemães e italianos para voar do melhor local possível para a América do Sul na Europa: Lisboa.

Essa alimentação via TAP é sobretudo positiva para o Norte e Nordeste do Brasil, dado que a Lufthansa não voa ainda com aeronaves próprias. No Brasil, a Lufthansa voa apenas para São Paulo e Rio, de maneira que seu passageiro que deseje chegar às praias do Nordeste passa sobre a região, vai até São Paulo e volta: é o backtrack no Brasil.

Assim, o cliente Lufthansa se beneficia de poder voar TAP de maneira direta para dezenas de outras cidades brasileiras de maneira direta. A TAP também se beneficia pois, com a alimentação da Lufthansa, mais voos da TAP deixam de depender exclusivamente do mercado Portugal-Brasil e passam a captar passageiros de toda a Europa com a grande capilaridade do grupo Lufthansa.
Isso aumenta a viabilidade econômica de novas frequências e até de novos destinos brasileiros. O Brasil deve se beneficiar de mais voos.

Desde 2016, várias companhias passaram a descentralizar seus voos a Europa fora de Rio-SP: Air France, KLM, Latam, Air Europa, Azul, Ibéria e a própria TAP. Faltava a Lufthansa.

Entre 2016 e 2026, por exemplo, o crescimento de assentos diretos entre o Nordeste e a Europa foi de 97%. Foram 733.356 assentos em 2016 (ida e volta) contra uma previsão de 1.447.029 assentos ao final de 2026, segundo dados da Agência Nacional Civil – ANAC.

Agora, o grupo deseja garantir sua parte adicional da demanda e fará brilhantemente com a TAP.

Recife deve se beneficiar

Como dito, o Nordeste é das regiões brasileiras que melhor podem se beneficiar da parceria. Há quem fale que a Lufthansa pode vir a melhorar o padrão de serviço da TAP, muitas vezes tratado como caro e mediano.

Nesse contexto, segundo a Aviationshop, há a previsão de a Lufthansa trazer até 8 Airbus A350-900 para a frota, uma das aeronaves mais modernas do mundo, voadas por Air France, Ibéria e a própria Lufthansa.

O ganho para o cliente nordestino ou para o europeu que se destina ao Nordeste deve ser o maior do Brasil.

A TAP foi a companhia que apostou há muitos anos na região: Fortaleza, Natal, Recife, Maceió e Salvador tornaram-se portas de entrada importantes para o Brasil através de Lisboa.

No Recife, a companhia opera com até dois voos diários a Lisboa há mais de 5 anos, possuindo forte capilaridade doméstica junto à Azul Linhas Aéreas.