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Por que tantas mulheres não conseguem sair de relações abusivas?

Se ele é abusivo, por que ela não vai embora? A resposta está longe de ser simples

Por Claudia Molinna

Relações abusivas

Se ele é abusivo, por que ela não vai embora? A resposta está longe de ser simples. Romper uma relação marcada pela violência pode envolver dependência financeira, medo, filhos, isolamento, falta de apoio e até risco à própria vida.

Os dados mais recentes ajudam a dimensionar esse aprisionamento. Em 2025, o Ligue 180 recebeu mais de 155 mil denúncias de violência contra mulheres. Quase metade das violações, 49,9%, era de violência psicológica. Em cerca de 32% das denúncias, a violência acontecia diariamente, e em aproximadamente 21% dos casos já durava mais de um ano. Os dados também revelam mulheres convivendo com agressões durante mais de cinco e até mais de dez anos.

O cenário mais extremo aparece no 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. O país registrou 1.571 feminicídios em 2025, recorde da série histórica, além de 4.189 tentativas de feminicídio. Em 62,5% dos feminicídios, a mulher foi morta dentro de uma residência. E, entre os casos registrados, 60,9% tiveram como autor o parceiro íntimo e 18,9%, o ex-parceiro.

Permanecer, portanto, nem sempre significa escolher ficar. Algumas mulheres não possuem renda para sustentar os filhos. Outras não têm para onde ir, foram afastadas da família e dos amigos ou enfrentam a resistência dos próprios filhos à separação.

A violência psicológica também compromete a capacidade de reação. O medo de morrer, o controle do dinheiro, do celular, das roupas e das amizades, as humilhações e as ameaças podem se alternar com pedidos de desculpas e promessas de mudança.

Com o tempo, essa dinâmica vai minando a autonomia, a autoestima e até a percepção de que é possível sair daquela relação.

Por isso, talvez a sociedade esteja fazendo a pergunta errada. Em vez de questionar “por que ela não vai embora?”, é preciso perguntar: “o que está impedindo essa mulher de sair?” A resposta pode estar justamente naquilo que lhe falta: renda, apoio, proteção e condições para romper em segurança.

Eleição presidencial sem mulheres: o que isso diz sobre o poder no Brasil?

Reprodução - Eleição presidencial sem mulheres: o que isso diz sobre o poder no Brasil?

O Brasil poderá chegar às eleições presidenciais de 2026 diante de uma situação que merece atenção, ou seja, depois de quase três décadas, nenhuma mulher aparece, até agora, compondo uma chapa presidencial considerada competitiva.

O dado chama ainda mais atenção quando lembramos que as mulheres representam a maioria do eleitorado brasileiro. Elas votam, decidem eleições, participam de movimentos sociais, ocupam universidades, empresas e diferentes espaços profissionais. Entretanto, quando chegamos aos postos mais altos de poder, essa presença diminui drasticamente.

Desde 2002, mulheres estiveram nas principais disputas presidenciais brasileiras, como candidatas à Presidência ou à Vice-Presidência. Dilma Rousseff chegou ao Palácio do Planalto e tornou-se a primeira mulher presidente do país. Marina Silva, Simone Tebet, Heloísa Helena e outras também disputaram espaço em eleições nacionais.

O problema, portanto, não parece estar na ausência de mulheres qualificadas, mas na dificuldade de transformá-las em protagonistas das estruturas partidárias e eleitorais.
As decisões sobre candidaturas competitivas ainda passam por ambientes historicamente dominados por homens. E isso ajuda a explicar uma contradição brasileira: mulheres são maioria entre os eleitores, mas continuam minoria nos principais espaços de decisão. Não basta incentivar mulheres a votar. É necessário criar condições para que também possam disputar efetivamente o poder.

Conteúdo íntimo na internet: novas regras ampliam a responsabilidade das plataformas

Reprodução - Conteúdo íntimo na internet

Uma imagem íntima publicada sem consentimento pode levar segundos para chegar à internet e anos para desaparecer da vida de uma vítima. É justamente nesse intervalo que rapidez deixa de ser apenas uma questão tecnológica e passa a ser uma forma de proteção.

O Decreto nº 12.976/2026 regulamentou pontos importantes relacionados à proteção de crianças, adolescentes e vítimas da divulgação não consentida de conteúdo íntimo no ambiente digital, estabelecendo procedimentos para atuação das plataformas. Por exemplo, definiu como as empresas devem receber denúncias, retirar conteúdos, preservar informações relacionadas às ocorrências e adotar medidas para impedir que materiais já removidos voltem a circular.

A mudança chama atenção para um dos maiores problemas enfrentados por vítimas de violência digital, ou seja, enquanto pedidos, documentos e decisões percorrem caminhos burocráticos, fotografias e vídeos podem ser copiados, compartilhados e republicados milhares de vezes.

O impacto não termina quando a publicação é apagada. Exposição, constrangimento, perseguição, prejuízos profissionais e sofrimento psicológico podem acompanhar a vítima por muito tempo.

Por isso, a retirada rápida do conteúdo é fundamental, mas não resolve sozinha o problema, pois é preciso também impedir novas publicações, preservar elementos que possam servir de prova, identificar responsáveis quando juridicamente possível e garantir canais acessíveis para que vítimas consigam pedir ajuda sem enfrentar uma segunda violência: a burocracia.

A tecnologia ampliou extraordinariamente nossa capacidade de compartilhar informações. A legislação precisa desenvolver, na mesma velocidade, mecanismos capazes de proteger quem teve sua intimidade violada, porque quando se trata de conteúdo íntimo divulgado sem consentimento, algumas horas podem fazer uma diferença enorme.