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Cuidar das contas é cuidar das pessoas

Recusar o debate sobre ajuste fiscal prejudica os pobres, pois protege os privilégios que disputam o orçamento, empurrando o custo ao derretimento do poder de compra

Por Mano Ferreira

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), durante Sanção do PLP nº 186/2026 (limites do MEI e remissão de créditos da União) e envio de PEC sobre tarifa zero no transporte coletivo aos fins de semana e feriados, no Palácio do Planalto, Brasília-DF.

O governo Lula 4 nem começou, mas já revive uma antiga tese, anterior ao Plano Real: a de que contas equilibradas e cuidado com os pobres seriam objetivos rivais. É uma oposição falsa. E quem paga por esse erro é justamente quem mais deveria ser protegido.


Só existe responsabilidade social com responsabilidade fiscal. Porque só é possível ter um governo que cuida das pessoas quando ele cuida da eficiência das contas públicas. Essa não é uma abstração dos mercados para agradar banqueiros. É uma necessidade de quem vive na correria.


Para alegria dos rentistas, a irresponsabilidade aumenta os juros, gerando uma bola de neve de endividamento e prejudicando quem convive com boletos pendentes. Esse cenário alimenta a inflação, roubando o poder de compra dos mais pobres. E não há benefício social que resista ao derretimento do dinheiro no carrinho do supermercado.


A largada do quarto mandato de Lula não deixa margem a ilusões. A dívida bruta chegou a 82,9% do PIB. A Instituição Fiscal Independente projeta déficit de R$ 86 bilhões em 2027, enquanto o governo promete superávit recorrendo à contabilidade criativa, deixando gastos reais de fora da conta oficial. A estimativa da IFI é que estabilizar a dívida pode exigir um esforço de até R$ 450 bilhões.


Reeleito, o presidente promete fazer a economia crescer sem cortar nada que soe social. O problema aqui não é a boa intenção. É agir como se proteger o gasto social fosse sinônimo de interditar o debate sobre cortes. Deveríamos justamente provocar o debate sobre a efetividade do impacto social de cada política pública, para proteger e favorecer as boas, mas revisar e cortar as ineficazes.


Contas desequilibradas indicam a existência de um conflito distributivo. Há mais demanda por gasto do que recurso disponível. Não cairá dinheiro do céu para resolver o problema magicamente.


Nesse cenário, proteger os mais pobres significa arbitrar o conflito criando critérios objetivos de impacto social para nortear as prioridades. Significa fazer escolhas no rumo certo. O contrário de fingir que elas não precisam ser feitas. Quando Lula apenas interdita o debate, protege as políticas socialmente ineficientes, que capturam parcelas do orçamento sem se submeter à rigorosa avaliação de desempenho.


É assim que boas intenções disfarçam privilégios perpétuos. Supersalários, renúncias tributárias, emendas parlamentares, ineficiências. Cada um com seu lobby, todos disputando o mesmo dinheiro que paga o Bolsa Família. Quando o orçamento explode, a destruição de renda acomete primeiro o poder de compra do mais pobre. Os privilégios seguem intocáveis.


Todo governo tem mais capital político no início. Não enfrentar o conflito distributivo agora sepulta a esperança de enfrentá-lo com o desgaste do tempo. Ter responsabilidade social é combater as ineficiências que sequestram o orçamento. Quem se recusa a discutir o ajuste já escolheu quem vai pagá-lo: os mais pobres. Qual será a escolha de Lula?