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Síndrome de Napoleão não constrói países livres

Derrotado nas urnas, senador Flavio Bolsonaro se declara "verdadeiro presidente eleito" dos "Estados Unidos do Brazil", recua, dá ordens e desmoraliza a direita

Por Mano Ferreira

Flávio Bolsonaro e a família desembarcaram nos Estados Unidos na manhã desta quarta-feira (28)

Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno 2,2 milhões de votos à frente de Lula, liderou boa parte das pesquisas do segundo turno e perdeu. No lugar de prestar contas aos correligionários sobre os erros cometidos na campanha, assimilar as lições aprendidas e organizar os trabalhos do seu próprio campo, simplesmente fugiu. Do Brasil e da responsabilidade.


A fuga pela Argentina para os Estados Unidos ocorreu após a controversa ordem de Alexandre de Moraes para confisco de seus passaportes. A decisão sigilosa do ministro do STF merece debate. Os excessos do Judiciário são tema legítimo e urgente, que precisam voltar à pauta com seriedade para encaminhar reformas. Mas a resposta escolhida pelo senador diz mais sobre ele do que sobre o ministro.


Ao desembarcar em Miami, Flávio divulgou uma carta delirante, em que se declara "o verdadeiro presidente eleito do Brasil" e, sem sustentar qualquer indício, alega fraude nas urnas. A primeira versão do documento trazia o brasão dos "Estados Unidos do Brazil". O brasão foi corrigido, com leves ajustes no texto. O vexame ficou. É postura de Napoleão de hospício.


Primeiro, pela arrogância do protagonismo. Flávio se dirige "aos senadores, deputados e governadores que ajudei a eleger", como se mandatos fossem favores concedidos por um monarca, e não procurações dos eleitores. A mesma lógica distorcida é reproduzida na estrutura do texto. Apesar de se dirigir ao povo brasileiro, o documento “antes de mais nada” agradece a Milei e Trump, presidentes de Argentina e Estados Unidos, e menciona os quase 60 milhões de votos apenas no décimo parágrafo. Não para agradecê-los, mas para tratar os eleitores como seus.


Há um desprezo à dinâmica da construção de poder numa democracia. Liderança não se decreta por carta. Constrói-se com presença, negociação, legitimidade e coesão de grupo. Em fevereiro, o Congresso elege suas Mesas Diretoras e distribui as comissões. A depender da estratégia adotada e da capacidade de coordenação de esforços, a oposição decidirá se terá voz ou apenas barulho pelos próximos quatro anos. Trabalho de corredor, voto contado, concessão, articulação e definição de prioridades. Nada disso se faz de Miami. O próprio Rogério Marinho, a quem Flavio chama de “meu candidato à presidência do Senado” admitiu surpresa: esperava que Flávio assumisse a liderança da oposição. Era a promessa.


Fora da insanidade, a fuga também é tática de distração da responsabilidade. Ao se por como vítima de perseguição, o derrotado se esquiva de cobranças. Que erros foram cometidos? Por quem? Que lições precisam ser assimiladas? Ao fugir do pais e se declarar vencedor, Flávio dispensa o balanço. Impede a circulação de teses a serem debatidas no ambiente interno do seu próprio partido. Não há derrota a explicar quando se nega a derrota. O método interdita o debate e impede renovação. A direita continuará submetida ao sequestro da família Bolsonaro?