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Nepobaby não sabe perder: o papelão de Flávio

Desaprovação favorecia troca de governo, mas rejeição ao sobrenome Bolsonaro falou mais alto. A direita precisa decidir se terá um projeto claro de país ou seguirá refém de família com hábitos antidemocráticos

Por Mano Ferreira

Flávio Bolsonaro

Flávio Bolsonaro nunca precisou disputar nada de verdade. Seu primeiro emprego foi fruto de uma indicação política. Aos 21 anos, já era deputado estadual no Rio, embalado pelo sobrenome. Virou senador na onda do pai em 2018. Em dezembro, recebeu a candidatura presidencial por indicação de Jair Bolsonaro, condenado e preso, como quem recebe uma herança familiar. Não houve prévia partidária, disputa verdadeira ou mesmo uma resistência significativa no campo da direita. Apenas uma indicação de família. Como se a sucessão política pelo primogênito, característica monárquica, fosse uma decorrência natural.

Tarcísio de Freitas era apontado pelas pesquisas como o nome mais competitivo do campo. Partiria do maior colégio eleitoral, com baixa rejeição e estilo moderado, capaz de dialogar com um segmento mais amplo da sociedade. Mesmo assim, aceitou resignadamente a escolha de Bolsonaro, e recolheu-se à reeleição em São Paulo, onde obteve vitória ampla e confortável. Caiado e Zema seguiram caminhos próprios, mas sem contar com o apoio de seus próprios partidos.

O preço apareceu nas urnas. Flávio terminou o primeiro turno 2,2 milhões de votos à frente. Perdeu o segundo por 4,4 milhões. Em três semanas, Lula cresceu mais de seis pontos; Flávio, pouco mais de um. Parte importante dos eleitores de Caiado, Cury e Renan Santos olhou para o sobrenome e rejeitou a submissão da direita ao projeto familiar.

Nem a campanha escapou da lógica dinástica. O escândalo que mais a feriu foi a revelação de que Flávio negociou com Daniel Vorcaro, do Banco Master, R$ 134 milhões, supostamente para um filme sobre o pai. Antes disso, negou ao menos 12 vezes qualquer relação com o banqueiro.

Em agosto, Flávio prometeu, em entrevista na TV, que aceitaria o resultado. Na noite de domingo, disse ser "impossível" reconhecê-lo e anunciou o pedido de anulação. O motivo alegado: os 35 mil votos registrados após as 17h, graças à prorrogação da votação decidida por Cristiano Zanin.

A postura do judiciário merece amplo escrutínio da sociedade. Mas a própria campanha de Flávio havia pedido mais tempo de votação em alguns estados. E crítica verdadeira se faz com argumento e proposta de aperfeiçoamento institucional, não com a tentativa de anular 124 milhões de votos.

A postura antidemocrática tende ao isolamento. Os partidos que o apoiaram reconheceram a vitória de Lula. Caiado foi direto: "Nos curvamos à decisão da maioria". Até Michele Bolsonaro e Nikolas publicaram mensagens de tom religioso, resignados com o resultado.

A direita brasileira saiu destas eleições com um Congresso forte e governadores competitivos. Tem quadros e votos. Pode ter um projeto sério. O que não tem é autonomia. Enquanto a candidatura presidencial for decidida numa cela e herdada por um filho, o campo continuará refém de uma família que confunde o país com o patrimônio doméstico. O primeiro passo de libertação é simples: aprender a perder.