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Nikolas Ferreira e a fábula do sudestino redentor

Nessa história, Nikolas seria o sudestino redentor que aparece para dar voz aos nordestinos que, enfim, libertaram sua mente da lógica da exploração

Por Mano Ferreira

caminhada é liderada por Nikolas Ferreira

Parede sem reboco, terra batida e lamúria. Enquadramento dirigido para a simplificação. O vídeo gravado no interior da Bahia pelo deputado federal mineiro Nikolas Ferreira apela a um estereótipo, parado no tempo, de um Nordeste explorado que precisa ser libertado. A condescendência da premissa me irrita. Como deve ter irritado o desrespeito aos direitos autorais da sanfona de Mestrinho, cuja reivindicação legítima do cantor Rubel foi estranhamente classificada como “tentativa de censura”. A liberdade do povo nordestino é tema sério demais para ser objetificado por candidatos a salvadores da pátria.

Nessa história, Nikolas seria o sudestino redentor que aparece para dar voz aos nordestinos que, enfim, libertaram sua mente da lógica da exploração. A tese principal é que, apesar das promessas repetidas, nada teria mudado na região desde a primeira ascensão de Lula à presidência. Como desde então o Nordeste dá vitórias expressivas ao petista, a conclusão lógica é que o povo nordestino nunca soube votar. E talvez agora aprenda, com a chegada do redentor. Se o resultado não mudar, sabe como é, volta a xenofobia.

É claro que o Nordeste, como o Brasil, ainda possui graves desafios sociais que devem ser enfrentados sem maquiagem. O vídeo de Nikolas, porém, parte de um diagnóstico errado e menospreza a inteligência do eleitor. É insanidade negar as razões que levaram Lula a conquistar a preferência no Nordeste.

Sou nascido no Recife, mas meu pai é filho do interior. Nos anos 1990, íamos com frequência para Cupira, no Agreste, onde mora até hoje minha tia, professora de escola pública. Na entrada da cidade, a paisagem me chocava. Sob lonas empoeiradas, crianças da minha idade quebravam pedras. Enquanto eu passava dentro do carro para as férias, observava aquelas crianças sentadas no chão, martelando na pedreira. Elas deveriam ser alunas da minha tia, mas não conseguiam frequentar as aulas. Foi com histórias de vida, pessoas de carne, osso e sentimento, que entendi muito cedo a importância de políticas públicas como o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil e o Bolsa Escola, criadas ainda no governo FHC, depois consolidadas no Bolsa Família, do governo Lula.

Ainda na infância, eu também presenciei, na zona rural de Panelas, a chegada da energia elétrica no sítio em que meu avô nasceu. Época de privatização da Celpe e do programa Luz no Campo, que virou o Luz Para Todos. Foi uma festa inesquecível, os primos todos reunidos. São transformações estruturais: energia elétrica, superação do trabalho infantil e da fome, criança na escola, interiorização de cursos técnicos e universidades.

Há desafios que persistem, como o acesso regular à água, o saneamento, a qualidade da saúde e educação, o ambiente de negócios ao empreendedor. O nordestino quer sonhar novos sonhos, mas não esquece de onde vem, nem menospreza como chegou. Desde Frei Caneca e Joaquim Nabuco, a liberdade brota dessa terra. Sem fábula de sudestino redentor.