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O custo do resgate do eleitor desprezado

Em meio à batalha de populismos, candidatos não querem voto do eleitor moderado que se preocupa com responsabilidade fiscal, eficiência do Estado e qualificação da democracia.

Por Mano Ferreira

O custo do resgate do eleitor desprezado

Toda eleição apertada tem um eleitor de ouro. Em 2026, ele é pequeno, identificável e, ao mesmo tempo, desprezado. No livro Brasil no Espelho, Felipe Nunes divide o eleitorado em segmentos. De um lado, 41% formam a base do PT. Do outro, 49% se alinham ao antipetismo. No meio, dois grupos de cerca de 5% cada: os empreendedores individuais e os liberais sociais, onde uma parte pode ser descrita como "os antigos tucanos".

Com Flávio Bolsonaro e Lula tecnicamente empatados, na margem de erro, nas principais pesquisas, esses 10% valem ouro. Seria razoável esperar que os dois candidatos disputassem esse eleitor, modulando seus discursos para sinalizar compromissos importantes para esses públicos. No caso dos empreendedores individuais, vimos gestos das campanhas em propostas voltadas aos MEIs. No caso dos liberais sociais, as campanhas parecem fazer justamente o contrário.

Esse público deseja ver as contas públicas em ordem, um Estado reformado, que funcione com eficiência, e o diálogo democrático requalificado, onde adversários sejam tratados como adversários, não como inimigos. Nada disso está no cardápio.

Do ponto de vista das contas, há um festival de promessas irresponsáveis. As iniciativas eleitorais anunciadas por Lula já mobilizam mais de R$ 350 bilhões por ano, nas contas do economista Marcos Mendes. Flávio responde no mesmo tom. Além de negar ajustes em aposentadoria, salário mínimo, saúde e educação, ele prometeu congelamento de dívidas e uma reencarnação do Perse, um programa de privilégio tributário para o setor de eventos criado na pandemia como um socorro supostamente provisório. Como joia da coroa, ontem, apresentou um tal de ViraPix. A proposta não consta do plano de governo, nem tem rascunho apresentado, promete um cashback automático para qualquer pagamento: “Conta de luz, prestação, taxa, tudo o que você pagar, uma parte volta pro seu bolso". Parece mágica.

A segunda incongruência é a eficiência do Estado. Lula evita até o rótulo de reforma administrativa. Sua ministra da gestão trata o rombo das estatais como investimento público. Flávio fala em fechar dez ministérios, o que é mais cosmético do que substancial. Ninguém apresenta uma agenda consistente para reformas da máquina pública.

No aspecto da requalificação do diálogo público, cada lado trata o outro como caso de polícia. Os candidatos não reconhecem a legitimidade de seus adversários. O único apelo que resta é o medo.

O custo dessa estratégia vai além de domingo. Quem vencer chega ao Planalto sem mandato para ajuste, sem agenda de eficiência e com metade do país convencida de que é governada por um bandido. É uma receita que encare a governabilidade, empodera ainda mais o Centrão e empurra o horizonte de reformas para um futuro indefinido.

Uma eleição apertada pode ser decidida por esse eleitor. Só que os candidatos parecem ter desistido de convencê-lo. Preferem apenas assustá-lo: “vote em mim ou viva a tragédia que o outro lado representa”. Como reféns diante de sequestradores.