Baixaria domina pior debate da democracia brasileira
Espetáculo deprimente de ataques escancara baixo nível da política nacional, dominada pela lógica agressiva da tribalização tóxica das redes e esvaziada de propostas
Após passar o primeiro turno inteiro sem a oportunidade de assistir a um debate com a participação de Lula e Flávio Bolsonaro, hoje a sociedade brasileira talvez acorde perguntando se não teria sido melhor terminar o segundo turno sem o espetáculo deprimente de ontem à noite.
Minha resposta: apesar do nível assustador, é importante que o debate tenha acontecido. A contraposição de ideias e posturas segue sendo um pilar necessário da democracia. Por pior que seja o filme, ele expressa uma realidade cuja transformação só pode acontecer a partir da constatação sem maquiagens. Não adianta enfiarmos a cabeça no chão para evitar avistar a paisagem em ruínas. Nossa democracia está degradada. E só poderá ser requalificada com transparência e participação cívica.
Antes do evento, as duas campanhas discursaram no mesmo tom: dariam prioridade a propostas, evitando ataques pessoais e reduzindo riscos. A promessa não sobreviveu ao primeiro bloco.
No lugar de propostas, vimos uma sucessão interminável de ataques. Miliciano. Corrupto. Traidor da pátria. Ladrão de carteira. Esse foi o vocabulário de quem pretende governar o Brasil a partir de janeiro. No lugar de visões articuladas sobre os desafios comuns da população, uma metralhadora de acusações focadas na falta de integridade e credibilidade do adversário. A parte mais triste é que, neste âmbito, talvez os dois tenham razão no mérito do que vociferam contra o outro.
Ocorre que, independente disso, cada um deles representa, pelo voto, milhões de brasileiros. Por isso, deveriam ser tratados com respeito por quem deseja chefiar a República e, por dever constitucional, precisará ser presidente de todos os brasileiros, inclusive daqueles que divergem.
Houve propostas? Algumas. Flávio prometeu classificar facções e milícias como narcoterroristas e criar mais de 500 mil vagas em presídios. Lula cobrou a aprovação da PEC da Segurança e prometeu um novo ministério. Quanto custam 500 mil vagas? Quem paga? O que muda, na prática, com mais um ministério em Brasília? Ninguém perguntou. Ninguém parecia interessado na resposta.
O motivo não está no estúdio. Está no celular. O formato livre, com os candidatos circulando pelo palco, virou ringue. Cada provocação foi desenhada para virar corte, compartilhado por torcidas em busca de munição. Na democracia, deveríamos encontrar as convergências possíveis para as transformações necessárias. Só que, na lógica tribal das redes, vence o debate quem humilha o adversário, não quem convence o eleitor.
O problema é que a conta chega depois da urna. Sem nenhuma proposta debatida a sério, o vencedor chegará ao Congresso sem programa claro. Governabilidade, nessas condições, tem preço alto. E quem paga é o contribuinte.
Ainda resta o debate da Globo, previsto para sexta-feira. Será a última chance de os dois tentarem falar com cidadãos, não com torcedores intoxicados. Teremos algum avanço de comportamento? Ou o eleitor seguirá aplaudindo, de camisa vestida, o espetáculo que o desrespeita?