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Entre a máquina e o medo, falta limite e sobra dívida

Com pacotes e promessas em série, Lula alcança empate técnico enquanto campanha explora medo de Flávio Bolsonaro, alimentado pela erosão sistemática dos freios ao poder.

Por Mano Ferreira

Presidente Lula (PT)

Desenrola 3.0, reajuste do Bolsa Família, caneta emagrecedora no SUS, proibição das bets, fim da escala 6x1, perdão de dívidas, PIX MEI, passe livre no transporte público aos finais de semana. Poderíamos preencher um parágrafo inteiro apenas com as medidas eleitoreiras, anunciadas pelo governo Lula após os prazos da justiça eleitoral.

Lula disparou uma espécie de metralhadora desgovernada de balas de prata. As pesquisas reagiram, com o Datafolha indicando um empate técnico. Difícil saber o efeito eleitoral de cada uma delas. Calcular seus custos para o país será tarefa que ainda depende de detalhamento, tamanha a dimensão do improviso e da falta de estudos técnicos para embasar as medidas.

Talvez pior do que o prejuízo orçamentário seja o legado institucional, com a quebra de todos os limites para o uso da máquina pública em prol de um projeto de reeleição. Isso produz um custo democrático difícil de dimensionar. As posturas de nossas lideranças constroem culturas políticas. Ou degradam.

O outro eixo da campanha se dá em torno do medo, um cabo eleitoral antigo. De fato, material não falta. Como deputado estadual, Flávio Bolsonaro homenageou na Alerj o miliciano Adriano da Nóbrega, chefe do Escritório do Crime, e empregou mãe e ex-mulher no gabinete. É herdeiro político de um ex-presidente condenado por tentativa de golpe de estado. E promete anistiar todos os golpistas. Não há dúvidas sobre a ausência de credenciais democráticas.

Mas o medo de um governante autoritário só ganha corpo quando faltam freios para contê-lo. E é aí que a campanha de Lula tropeça na própria sombra, quando banaliza o atropelo à limitação legal em nome do próprio interesse.

O Supremo, que deveria ser outro freio, atravessa sua pior crise de credibilidade. Ao menos seis ministros aparecem citados nas investigações do Banco Master: Moraes, Mendonça, Gilmar, Fux, Toffoli e Nunes Marques. Esse último com direito a relatos constrangedores de suas práticas sexuais financiadas pelo banqueiro mafioso Daniel Vorcaro.

Enquanto isso, a conta cresce. A dívida bruta chegou a 82,9% do PIB, R$ 11,1 trilhões, muito acima da média dos países com perfil de renda semelhante ao nosso. Mas o pior é a trajetória insustentável. São 11,2 pontos a mais só neste mandato. Cada pacote de véspera entrará nessa fatura, com juros. Será pago por quem ainda nem vota.

Eis o paradoxo. Quem promete proteger a democracia de Flávio desgasta, sem cerimônia, os limites institucionais que deveriam proteger o país de um Flávio. Um presidente que usa a máquina sem pudor ensina ao sucessor que isso é permitido. Um Supremo desmoralizado não terá autoridade para conter ninguém. E um Estado endividado terá cada vez menos margem para errar.

No dia 25, o eleitor escolherá um presidente. No dia 26, a vida continuará. Independente de quem seja o escolhido, seremos nós a pagar essa conta. E a pergunta inevitável que fica é: para dissipar o medo inflamável, quem cuidará dos limites do poder?