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Não é ditadura: é patrimonialismo de toga

Encurralados por suas próprias ações, ministros do STF sinalizam acomodação ao bolsonarismo, evidenciando como os ventos da política manipulam os princípios jurídicos

Por Mano Ferreira

Estátua da Justiça, do Supremo Tribunal Federal (STF)

Durante anos, o bolsonarismo repetiu que o Brasil vivia sob uma ditadura do Judiciário. Para a esquerda, o Supremo havia salvado a democracia. É evidente que as duas torcidas estavam erradas. O STF não é ditador. Muito menos herói. É um aparelho patrimonialista, que coloca suas próprias conveniências acima dos princípios jurídicos.

Estamos falando de uma instituição extrativista, extraindo recursos da sociedade em benefício próprio. Não é uma ditadura clássica. É um cupim democrático, corroendo por dentro os fundamentos do Estado de Direito. Isso não é menos grave. O ponto é que qualquer solução precisa partir do diagnóstico correto.

Ditadores impõem seu poder de cima para baixo, pela força, independente dos obstáculos. Não é o que faz o STF. Os interesses patrimonialistas dos ministros são articulados dinamicamente conforme os ventos da política. Avançam até onde a política permite. Combateram o bolsonarismo, atropelando a lei, enquanto foi conveniente ao equilíbrio de ocasião das forças políticas.

Após as urnas, o noticiário acumulou decisões favoráveis ao campo vitorioso. Alexandre de Moraes concedeu o semiaberto a Débora do Batom. Arquivou a investigação contra Marcos do Val, Allan dos Santos e Oswaldo Eustáquio. Encaminhou à PGR o pedido de Flávio para visitar o pai. Gilmar Mendes arquivou a apuração de estupro de vulnerável contra Alfredo Gaspar, vice da chapa.

O rigor exige dizer: cada decisão tem fundamento próprio. Progressão de pena é direito previsto em lei. Os arquivamentos seguiram pareceres da PGR. E duas das decisões foram assinadas antes da votação, em 4 de setembro e 2 de outubro. Os ministros já estavam encurralados.

Mas é aí que mora o problema. Nenhuma decisão, isolada, é escândalo. O padrão é. E ele não começou no domingo. Como esquecer o jantar de agosto em que Lula, Davi Alcolumbre e Cristiano Zanin articularam, na casa de Alexandre de Moraes, alianças políticas para a próxima legislatura? O que dizer daquele encontro entre Jair Bolsonaro e Dias Toffoli, num bar acanhado de Brasília, quando Flávio enfrentava problemas judiciais por seus infinitos rolos?

Não é ditadura. Ditadores não negociam com quem está chegando ao poder. É algo mais antigo e mais brasileiro: a jurisdição tratada como patrimônio de quem a exerce. Moeda de troca para preservar posições, proteger colegas e sobreviver a qualquer governo. Os donos do poder trocam de cor. O estamento fica.

O custo institucional é alto. Um tribunal que se ajusta conforme os ventos políticos não promove o império da lei. Pelo contrário: corrói a confiança nas instituições, estimula a corrupção e gera insegurança jurídica que nos afasta do caminho da prosperidade. Os movimentos recentes em Brasília apontam para a gestação de um grande acordo nacional, à moda Romero Jucá no tempo da lava-jato. Com o Supremo, com tudo. O forno já está em pré-aquecimento. A pizza será maior que o Maracanã.