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Legado, futuro ou parceria: três discursos a partir de Lula

Os dois deputados mais votados de Pernambuco divergem sobre como virar o segundo turno contra Flávio Bolsonaro. Sem aderir à campanha, a governadora oferece um terceiro caminho

Por Mano Ferreira

Jones Manoel, Pedro Campos e Raquel Lyra

Quem vence o primeiro turno chega ao Planalto. Foi assim em todas as eleições desde a redemocratização. Lula tem 21 dias para quebrar a escrita. A pergunta é óbvia. O que dizer ao eleitor que ainda não se convenceu? A resposta vem dividida, o que expõe a diversidade de sua base e, ao mesmo tempo, a dificuldade da campanha. O vento nacional a favor de Flávio Bolsonaro inevitavelmente antecipa o conflito do campo democrático pós-Lula.

Conversei com Jones Manoel (PSOL), segundo deputado federal mais votado de Pernambuco, com 249 mil votos. Para ele, há uma "crise de criatividade política no campo progressista”. Ele critica a insistência de reforçar a biografia do presidente, já intensamente conhecida. Um apego ao passado, incapaz de criar horizonte.

Jones aprofundou o exemplo citando a abordagem sobre educação. Lula se orgulha das universidades e institutos federais que criou. Para ele, o discurso não ecoa no jovem trabalhador que tem diploma, mas não consegue emprego de qualidade. Há uma falta de aderência à realidade. Formação sem trabalho vira frustração, o que afasta o eleitor.

Para atrair o trabalhador, segundo Jones, “a campanha precisa apontar para o futuro”, dando respostas a problemas concretos que afetam a qualidade de vida nos centros urbanos.

Pedro Campos (PSB), o deputado mais votado de Pernambuco, com 261 mil votos, constrói um discurso contrastante. Mostra o que já foi entregue: Pé-de-Meia, Gás do Povo, isenção do Imposto de Renda. E desconfia de quem quer rediscutir os conceitos do governo agora. "Falar em reflexão mais profunda sobre o governo em 21 dias de segundo turno é conversa que favorece Flávio Bolsonaro", declarou, em entrevista ao SBT.

Talvez os dois tenham um pedaço de razão. Ninguém reinventa uma campanha em três semanas. Mas as entregas já estavam na vitrine. E não bastaram. Há uma frustração real, que não deveria ser ignorada.

Nesse cenário, surge ainda um terceiro discurso. Reeleita com a retórica de pernambuquista, a governadora Raquel Lyra (PSD) não declara voto. Mas declara gratidão, repetidamente. Fala do presidente que "abriu as portas do governo". Cita Transnordestina, obras viárias, recursos para investimento. Quando pressionada, lembra a história de sua família no compromisso com a construção democrática e a liberdade de expressão.

Sem aderir, Raquel oferece ao pernambucano pragmático, de fora da esquerda, razões para votar em Lula. E preserva sua identidade política, de centro democrático. Sem fechar portas para o diálogo com um provável governo Flávio, a quem evita mencionar diretamente.

O que está em jogo vai além da tática imediata para esta eleição. É também a disputa sobre o campo político quando Lula sair de cena. O PSB deseja herdar o legado da esquerda pragmática. O PSOL quer ser protagonista da renovação. E Raquel deseja articular um centro que absorva parte da centro-esquerda.

São três apostas sobre o que mais agrega o eleitor. Legado, futuro ou parceria? A melhor resposta terá impacto no pós-Lula.