Avalanche da direita sobre ruínas do STF
Flávio Bolsonaro arrasta bancada histórica no Senado, chega ao segundo turno com enorme favoritismo e enfrenta um Lula arrogante e fragilizado em final de carreira
Apesar de uma resistência regional, com Lula dominante no Nordeste e parte do Norte, a direita obteve uma vitória retumbante no cenário nacional. Não foi apenas Flávio Bolsonaro quem conquistou votos acima do que as pesquisas projetaram, e chega ao segundo turno com amplo favoritismo. A avalanche tomou conta do Senado. O PL consolidou-se como a maior força da casa alta, elegendo impressionantes 21 senadores. E esse fato já nos ajuda a entender as razões.
Os eleitores foram às urnas sobre as ruínas institucionais do Supremo Tribunal Federal. O impeachment de ministros, antes pauta de nicho, virou plataforma de campanha. E a crise não foi inventada por nenhum agente externo. Foi construída pela própria Corte: no escândalo do Banco Master, nas decisões que blindam seus integrantes, na guerra de liminares, na sessão fatídica que envergonhou o país, na insegurança jurídica que inviabilizou a realização do derradeiro debate da Globo.
A completa incapacidade do Tribunal de agir com a mínima responsabilidade diante das graves suspeitas que pairam sobre os seus próprios ministros gerava a necessidade de respostas institucionais urgentes do mundo político. Não apenas do Senado, que possui atribuição constitucional para fiscalizar a Corte. Mas também da Presidência da República, de quem o eleitor espera uma postura de liderança republicana na chefia do Estado, jamais de omissão enquanto tudo vira ruínas. Só que nada disso aconteceu. Lula fingiu não ter responsabilidade alguma sobre a crise. Bem, o eleitor deu sua resposta contundente.
Após a apuração dos votos, a diferença de semblante nos pronunciamentos dos candidatos disse tudo. Flávio Bolsonaro feliz e sorridente, com um ambiente tomado por bagunça. Lula tenso, envolto de aliados com cara de velório.
Com 2% de vantagem no primeiro turno, o favoritismo de Flávio para o dia 25 é aritmético. Caiado, Renan Santos e Zema, todos abertamente de direita, somam perto de 4,5%. Augusto Cury, terceiro colocado com quase 2,8%, é um voto menos previsível. É difícil imaginar de onde Lula conseguirá conquistar votos capazes de superar Flávio. Sem projetar uma visão sobre o futuro, talvez aposte quase todas as suas fichas na desconstrução do adversário, apostando no papel que a abstenção pode ter. Só que dificultar o crescimento de Flávio não será suficiente para vencer.
Com ventos a favor, a oposição chega ao segundo turno com a estratégia muito mais clara e bem construída. Nenhuma das palavras-chave típicas de Jair Bolsonaro, como Deus, pátria e família, foram mencionadas por Flávio. Porque esse eleitor ele já tem. A ênfase foi toda no mote da mudança.
Porque o país está insatisfeito com o governo Lula. Esse é um fato que a esquerda tem muita dificuldade de assimilar: governos bem avaliados tendem à reeleição, como provou Raquel Lyra em Pernambuco, enquanto governos mal avaliados enfrentam dificuldades. A arrogância de Lula o cegou para o que sempre foi seu diferencial: a capacidade de se conectar com o povo.