Sequestradores da esperança degradam a democracia
Em meio a trágico intervencionismo do judiciário, Lula e Flávio sabotaram ritual democrático em primeiro turno marcado por suas ausências em todos os debates
Uma eleição sem debate, sem propostas, sem ética ou responsabilidade pública. Ao fim das campanhas de primeiro turno, esse é o legado deixado por uma trágica interação de fatores.
Como plano de fundo, seguidas decisões judiciais esquizofrênicas produziram insegurança jurídica até o limite da inviabilidade do derradeiro debate da Globo. No centro da tela, Lula e Flávio Bolsonaro sabotaram qualquer possibilidade de conversa séria sobre o futuro do país. Tudo isso na primeira disputa presidencial após o plano golpista que ameaçou a continuidade da democracia.
Pela noite de ontem, a continuidade democrática permanece sob ameaça. Agora com outros riscos. Autoridades egocêntricas, transformando as instituições em aparato de pilhagem para a perpetuação do próprio poder, podem nos conduzir a um suicídio institucional coletivo.
Iremos às urnas sobre os escombros da República. E sem qualquer expectativa segura de que os resultados serão respeitados pelos perdedores, sejam eles quem forem. O oportunismo político já capturou o poder judiciário. Não estamos sob o império da lei, mas de um vale tudo judicial que, no fundo, constitui grave autoritarismo antidemocrático. Aqueles que recebem nossos suados impostos para proteger a Constituição estão vandalizando todos os parâmetros de Justiça.
Em meio ao caos institucional, a falta de compromisso público e dimensão histórica de quem deseja chefiar o Estado brasileiro é, sinceramente, assustadora. Provoca mal estar cívico crescente, capaz do que parecia impossível: cavar ainda mais o fundo do poço que parecíamos ter alcançado naquela trágica plenária do STF.
Democracia não é só voto. É sobretudo um arranjo institucional para a promoção pacífica da pluralidade. Só sobrevive com cultura democrática. E exige rituais regulares de convivência entre os divergentes. Num processo eleitoral, nada é mais substantivo do que os debates. São o espaço comum que reúne representantes de distintas visões de mundo, sob regras iguais, para um duelo de ideias sob normas de decoro.
Constituem um gesto de respeito ao direito do cidadão de comparar os postulantes, em seus argumentos, propostas e posturas. Há nesse conceito um avanço civilizatório de enormes dimensões. Antes das democracias, os governos eram regidos pela lógica dos soberanos, indiferentes aos interesses de seus súditos. Ter que prestar contas à população é, nesse sentido, um ato de reconhecimento da dignidade da cidadania.
Tudo isso foi desprezado pelo gesto compartilhado de Lula e Flávio Bolsonaro, que se empenharam pelo esvaziamento de todos os debates ao longo do primeiro turno. Na prática, se comportam como donos do voto, não como líderes dispostos a reconhecer a soberania do eleitor e conquistar sua confiança. Herdeiros da nossa velha cultura escravocrata, desprezam o cidadão. Como mais sofisticado instrumento persuasivo, apelam aos defeitos do adversário. Estamos reféns de sequestradores da esperança. Mas somos mais que isso.