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Proibir as bets não resolve o vício

Calibrando discurso eleitoral, Lula cogita proibir apostas online. Em mundo conectado, abrir mão da receita não impedirá acesso a plataformas internacionais

Por Mano Ferreira

Presidente Lula

A poucos dias da urna, o governo Lula encontrou nas bets um inimigo capaz de unir três públicos estratégicos, onde há importante contingente de indecisos aptos a definir uma disputa tão acirrada: evangélicos, famílias endividadas e mulheres independentes dos centros urbanos. O Planalto estuda três caminhos. Proibir a propaganda. Proibir os jogos ao estilo tigrinho. Ou proibir qualquer modalidade de aposta online. Quer dizer, com uma exceção: as apostas estatais, operadas pela Caixa há muitas décadas. É que se o lucro for para o governo, tá valendo.

O diagnóstico não é inventado. Em 2025, as famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões para as plataformas, segundo o Comsefaz. Só no primeiro semestre de 2026, 31,8 milhões de apostadores depositaram R$ 88,4 bilhões. O próprio Lula resumiu: "é uma doença, não é um jogo". Em alguns casos, de fato.

Só que existem detalhes incômodos. Foi este governo que regulamentou o setor, em 2023, depois de anos em que a lei sancionada por Temer, em 2018, ficou sem regras sob a gestão de Bolsonaro. Enquanto isso, as casas de apostas cresceram sem qualquer fiscalização, estamparam camisas dos principais clubes de futebol e praticamente não pagaram impostos.

Agora, proibir repentinamente um setor econômico inteiro será um convite às ações judiciais. Pense no tamanho do prejuízo que a ruptura de contratos de patrocínio causaria aos clubes de futebol. O setor já fala em indenizações de R$ 120 bilhões. Números apresentados pela parte interessada, o que sempre merece um olhar crítico. Mas o risco é real.

De todo modo, a ideia de proibição total pressupõe um Estado capaz de desligar a internet. Não é. Mesmo com mais de 68 mil sites derrubados, algo entre 38% e 44% das apostas online ainda ocorre em plataformas clandestinas, segundo estudo encomendado pelo próprio setor. É lá que não há reconhecimento facial, autoexclusão, bloqueio a beneficiários do Bolsa Família, nem imposto. Quem migra primeiro? O apostador compulsivo, justamente quem o governo diz querer proteger. O apostador casual desiste. O viciado baixa uma VPN.

Porque vício não é problema de oferta. É de saúde. E aqui a aritmética constrange: o SUS tem cerca de 20 mil pacientes cadastrados para tratar ludopatia. O teleatendimento lançado em março recebeu R$ 2,5 milhões, com meta de 600 atendimentos por mês. Para 31,8 milhões de apostadores.

Existem caminhos proporcionais. Tratar com rigor os jogos no estilo caça-níquel, com algoritmos viciados para extrair dinheiro de viciados. Asfixiar financeiramente os ilegais. Multiplicar o tratamento. Regulamentar as plataformas oferecendo transparência ao cidadão sobre as taxas de retorno e lucratividade. Nada disso exige tratar como caso de polícia o adulto que aposta dez reais no jogo de domingo.

Proibir dá manchete. Tratar dá trabalho. E o viciado continuará a um clique da sua doença. Só que o seu dinheiro passará a ir direto para o crime organizado.