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Tudo aconteceu, nada mudou: o paradoxo de Flávio Bolsonaro

O derretimento da República não foi suficiente para mudar a polarização calcificada na disputa presidencial. Ainda há algo capaz de mudar a decisão do eleitor?

Por Mano Ferreira

Candidato à presidência Flávio Bolsonaro

Flávio Bolsonaro parecia um candidato frágil. Seu anúncio veio em clima de barganha. As primeiras impressões eram de que se tratava de um balão de ensaio para vender mais caro o apoio do clã a um outro candidato que prometesse proteção, anistia e posição privilegiada para a família. Candidato apenas pela condição de herdeiro primogênito do pai preso, porém, acabou demonstrando muito mais resiliência do que era possível imaginar.

Nesta segunda-feira, Estadão e Piauí trouxeram mais uma revelação que, em outros tempos, seria bombástica: em 2023, uma assessora do senador negociou diretamente com Robson Calixto, o "Peixe", miliciano condenado neste ano pelo assassinato de Marielle Franco, o repasse de R$ 199 mil a uma entidade do Rio de Janeiro. As mensagens mostram a assessora orientando o miliciano a cobrar o dinheiro pessoalmente num evento com o senador, e pedindo, em troca, ingressos para um camarote no Carnaval. A investigação é desdobramento da Operação Emendatio, autorizada por Alexandre de Moraes.

Está longe de ser o único caso esdrúxulo envolvendo Flávio. Seu histórico com a milícia é bastante antigo e nunca foi um segredo. Como deputado na Alerj, condecorou o miliciano Adriano da Nóbrega, chefe da facção Escritório do Crime, conhecido como maior matador do Rio de Janeiro, com a medalha Tiradentes, maior honraria do poder legislativo do estado. Sua conexão não parava por aí: empregou, no gabinete, a mãe e esposa de Adriano, em 2016.

Como um candidato com tantas conexões com a milícia pode ser competitivo enquanto o país se diz preocupado com o avanço da criminalidade violenta nas cidades?
Não é o único paradoxo. Pesquisa Nexus divulgada ontem mostrou a consolidação da certeza de voto em Flávio, com crescimento de 6 pontos desde a última rodada. Inevitável pensar no efeito do mar de lama togada. Na prática, o envolvimento de ministros do STF no gigantesco caso de corrupção do Banco Master, aparentemente, está favorecendo o candidato à presidência envolvido diretamente no mesmo escândalo.

A República derreteu. Tudo aconteceu. Nada mudou. Em março, Lula tinha 41% contra 38% de Flávio no primeiro turno, com empate técnico no segundo. Hoje, o cenário está 40% a 37%, com o mesmo empate técnico no confronto direto. O imobilismo do eleitorado preocupa mais do que qualquer resultado isolado. Uma democracia funciona quando o custo de errar é pago nas urnas. Já sabíamos da imunidade de Lula para o eleitor petista. Agora sabemos que o mesmo fenômeno se aplica ao outro lado da política.

De tanto se repetirem sem consequência, os escândalos deixaram de ser um sinal relevante para o eleitor e viraram apenas um ruído de fundo. O termômetro eleitoral parou de reagir à temperatura real do país. Donald Trump já declarou, certa vez, que seus apoiadores não o deixariam nem se matasse alguém na 5ª avenida. Será que isso é verdade no Brasil de hoje? Ainda existe algum fato capaz de romper essa polarização? Ou os fatos já deixaram de contar?