Em desespero, Lula aumenta Bolsa Família
Para tentar reverter a maré negativa na corrida eleitoral, presidente recorre à maior marca do seu primeiro governo e amplia o benefício social a apenas 17 dias da eleição
A apenas 17 dias da eleição, o presidente Lula assinou decreto reajustando o valor do Bolsa Família de R$ 600 para R$ 691. Custo: R$ 5,8 bilhões neste ano, R$ 22 bilhões anuais a partir de 2027. O ministro do Planejamento garantiu que é só uma reposição inflacionária de 15%, acumulada desde o início do governo. Só que ninguém tem dúvidas de por que a medida veio justo agora. Assim como ninguém responde à pergunta chata dos cabeças de planilha: como pagaremos essa conta? Num cenário de desequilíbrio estrutural do orçamento, haverá algum corte em outra despesa para compensar esse aumento de gasto?
As perguntas chatas são necessárias na vida adulta. Criar gastos sem receita ou corte correspondente é irresponsabilidade fiscal. No longo prazo, o acúmulo de medidas como essa leva ao aumento da pressão inflacionária, o que piora o custo de vida e aumenta os juros, levando a uma bola de neve de endividamento. Não apenas do governo, mas também das próprias famílias, como já mostram os números recordes desse indicador. Mas a manchete imediata do Bolsa Família é positiva para o governo. E no raciocínio político, não existe longo prazo sem vitória eleitoral. O país que se vire pra pagar depois.
A postura não é nova. Crítica parecida foi direcionada a Jair Bolsonaro, há quatro anos, por um pacote de benefícios que incluiu reajuste do auxílio, bolsa caminhoneiro e aumento do vale-gás. A ciência política chama de ciclo eleitoral do gasto público. Governos em fim de mandato tendem a acelerar despesa social perto da eleição e empurrar a conta para o mandato seguinte, seja ele de quem for. Quanto mais madura a democracia, menor o efeito desse tipo de manobra sobre o eleitor, que aprende a reconhecer a falta de seriedade da medida. O Brasil ainda está em um meio-termo desconfortável: o eleitorado já desconfia, mas ainda recompensa. Não foi suficiente para Bolsonaro, que perdeu a eleição apesar do seu pacote populista.
Agora, o cálculo do Planalto é que vale a aposta, mesmo com o desgaste de ser criticado por setores do mercado, em nome do trunfo que o Bolsa Família representa. Lula tenta criar um fato novo para virar a página da atenção pública, dominada pela crise sem fim do STF, que desgasta a sua imagem. A lógica é: falem mal, mas falem do meu tema. O poder de definir a pauta leva o debate para o terreno que Lula domina, fugindo do desconforto. Assim o governo se apresenta em favor dos mais pobres. E quem faz pergunta chata vira insensível.
Outra camada do problema é a perda de eficiência do próprio programa. O sucesso do Bolsa Família na redução da pobreza decorreu da sua boa focalização, ou seja, da capacidade de beneficiar quem de fato mais precisava. Desde a pandemia, junto ao aumento de valor do benefício, tivemos uma degradação da qualidade do Cadastro Único, que precisa ter sua governança modernizada. Ampliar o benefício sem corrigir seus problemas não é compromisso social de verdade. É o velho oportunismo guiado por desespero eleitoral.