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Ressaca moral pelo velório da República

Os últimos capítulos do sistema político nascido com a Constituição de 1988 se desenrolam em meio a um colapso de liderança. De onde teremos força para refundar a República?

Por Mano Ferreira

O Palácio da Alvorada

A República está nua. E andou transacionando interesses escusos em orgias sombrias. Ontem, a ressaca moral foi sentimento compartilhado por todo o noticiário. A vergonha nacional misturada com uma espécie de luto.

Não me refiro apenas ao abandono da sessão do STF pelo ministro Kassio Nunes Marques, envolto em rumores de que teria usufruído de serviços sexuais financiados por Daniel Vorcaro. Nem da festa de Halloween de 2023, revelada pela Revista Piauí, na Boate Madame Satã, em São Paulo, onde o banqueiro mafioso se vestiu de Drácula e, aparentemente, recebeu poderosos como o ministro Dias Toffoli, do STF, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, seu antecessor Rodrigo Pacheco, e talvez até o ministro Alexandre de Moraes para uma farra com 120 mulheres, inclusive profissionais do afeto oriundas da Suíça. Num podcast, enquanto dizia que Flávio Bolsonaro está “nervosinho”, o presidente Lula prometeu que “agora vamos saber quem foi fazer suruba”. Importante registrar: todas as autoridades negam participação nesses eventos.

O problema não está nos hábitos sexuais de ninguém, questão eminentemente privada. Está nas teias de compadrio tecidas entre autoridades do setor público e empresários enrolados com a justiça.

Em 1837, Hans Christian Andersen escreveu a história de um imperador vaidoso enganado por dois trapaceiros que prometiam produzir uma roupa invisível aos olhos de quem fosse "estúpido ou incompetente demais" para seu cargo. Ninguém na corte admitia não ver o tecido. O imperador desfilou pelas ruas, aplaudido por uma multidão que fingia admirar o que não existia. Só uma criança, sem cálculo político a proteger, gritou o óbvio: o rei está nu.

A sessão do STF teve o efeito do grito dessa criança. A instituição criada para garantir a aplicação da lei não consegue aplicá-la a si mesma. Esse fenômeno foi descrito pelo jurista Joaquim Falcão, da Academia Brasileira de Letras, autor de "A Oligarquia dos Poderes e a Crise da Democracia". Executivo, Legislativo e Judiciário deixaram de operar como contrapesos institucionais e passaram a atuar pela sobrevivência de seus integrantes. Se confrontam diante das câmeras, mas se acomodam quando a luz apaga, em conluio que sabota o país.

Esse fenômeno se intensifica num contexto histórico particularmente desafiador. O Brasil nunca atravessou uma transição geracional de elites políticas sob um mesmo regime. As trocas geracionais se deram com rupturas e golpes de estado. A Nova República, nascida em 1988, é nossa mais longeva experiência democrática. E o mesmo homem que disputou a eleição presidencial em 1989 é hoje candidato pela sétima vez, aos 81 anos, símbolo de um sistema que não conseguiu se renovar.

Quando a geração fundadora de um regime se esgota ao mesmo tempo em que suas instituições se degradam, não estamos diante de uma crise pontual. É o fim de um ciclo. A Nova República se tornou um “cadáver adiado que procria”. Sem repetir os erros do passado autoritário, é necessário refundar a República. Como?