O duplo padrão na República de abusadores
Autoridades praticam abuso psicológico com o cidadão brasileiro enquanto operam na base do cinismo, com exigências éticas aos adversários que não aplicam a si mesmos
Gaslighting é um abuso psicológico no qual o agressor manipula ou nega fatos para fazer a vítima duvidar de sua própria memória, percepção e sanidade, fenômeno comum no ciclo de violência do feminicídio. Estamos todos vivendo uma relação tóxica com o Estado brasileiro. Nossas autoridades praticam gasligthing contra o cidadão.
Foi o que pensei, incrédulo, observando a foto do ano: a gargalhada dos ministros ao fim da primeira sessão do STF após as revelações sobre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro. Enquanto a credibilidade das instituições se esfarela, ameaçando a democracia, os responsáveis por protegê-la confraternizavam sorridentes, certos de que nada devem ao país que paga suas contas.
O livro Por que as nações fracassam? defende que há dois grandes modelos de instituições. As inclusivas constroem o império da lei, afirmam direitos fundamentais e incluem os excluídos, levando à prosperidade. As extrativistas são dominadas por uma casta que extrai recursos da sociedade em benefício próprio, protege seus privilégios e perpetua sua condução, levando ao fracasso. Alguém tem dúvidas sobre qual delas está ilustrada naquela foto?
No Congresso, Nikolas Ferreira exige que Moraes "explique os encontros, as mensagens e o contrato". Logo depois, o próprio Nikolas também tinha mensagens a explicar. Mas o que é isso perto do seu candidato à presidência? Da tribuna do Senado, Flávio Bolsonaro cobrou a renúncia de Moraes. O mesmo Flávio flagrado em 134 milhões de mentiras sobre sua relação com o banqueiro mafioso. Poderia bradar seu discurso de frente ao espelho.
Para superá-lo, surge o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, conhecido como apreciador das “suiças do Vorcaro”. Reagiu a Flávio lembrando o dinheiro recebido. Não para exigir explicações. Cobrou, na verdade, sua adesão à frente ampla pela impunidade.
Com inveja das performances, o ministro Alexandre usou o inquérito das Fake News para solicitar investigação contra André Mendonça. Sem dar qualquer explicação sobre sua própria conduta. De imediato, o presidente da Corte determinou prazo de 5 dias para manifestações escritas de todos os envolvidos.
No Palácio do Planalto, em claro movimento coordenado, o presidente Lula defendeu a necessidade de reformas profundas do sistema político e judiciário. Como se não fosse ele o maior responsável por liderar a República e conduzir reformas. Como se sua liderança política não fosse parte importante do que nos trouxe até onde estamos.
Para Lula, a integridade das investigações deve ser liderada pelo presidente do STF e pela Procuradoria Geral da República. Como se Paulo Gonet, o PGR, não fosse ele próprio suspeito. Lula também ignorou completamente as suspeitas que pairam sobre Andrei Rodrigues, que frequentou o clube de whisky de Vorcaro, mas segue impávido na chefia da Polícia Federal. Por uma escolha do presidente.
Não duvide da sua sanidade. Estamos vivendo sob uma República de Abusadores.