° / °
Cadernos Blogs Colunas Rádios Serviços Portais

Até onde vai o fenômeno Augusto Cury?

Escritor de sucesso chega aos dois dígitos nas pesquisas e ocupa o espaço da terceira via. Será que o Brasil, cansado da polarização, vai recorrer ao psiquiatra da autoajuda?

Por Mano Ferreira

Augusto Cury, candidato do Avante

Augusto Cury entrou pra valer na disputa presidencial. Pelo menos por enquanto. Talvez não dure muito. A Nexus/BTG mostrou Cury com 11%, fazendo dele o primeiro candidato fora da polarização a figurar com 2 dígitos desde Ciro Gomes, em 2018. Já o desempenho na AtlasIntel foi menos expressivo, de 7,8%, mas suficiente para confirmar uma tendência de crescimento que agora o coloca como terceiro lugar. É um feito e tanto.

Até ontem, apesar de ser um dos escritores de maior sucesso de vendas da história do Brasil, o psiquiatra Augusto Cury era considerado um candidato à presidência no terceiro pelotão. O primeiro tem Lula e Flávio, favoritos à disputa do segundo turno. O seguinte tinha os ex-governadores Ronaldo Caiado, de Goiás, e Romeu Zema, de Minas, além de Renan Santos, o líder do MBL, movimento que convocou manifestações pelo impeachment de Dilma, há 10 anos – aliás, campanha que foi suspensa ontem por decisão absolutamente controversa, com tons autoritários, do ministro Dias Toffoli.

O fato é que Cury vinha enquadrado no grupo dos nanicos, que não passam do 1%, como o Veterinário Wilson Grassi (Democrata), Edmilson Costa (PCB), Clariana Barão (DC), Samara Martins (UP), Hertz Dias (PSTU) e Rui Costa Pimenta (PCO). Sua presença nos debates e sabatinas na TV seria apenas uma obrigação legal comparável a Levy Fidelix, em 2014, ou Padre Kelmon, em 2022.

O debate da Band, que tradicionalmente abre a temporada de confrontos entre os candidatos, foi marcado pelas ausências de Lula e Flávio Bolsonaro, numa atitude de desrespeito ao eleitor, como se o jogo já estivesse decidido sem a participação do cidadão. Renan Santos roubou a cena com radicalismos, prometendo um banho de sangue contra “inimigos da nação”. Augusto Cury se destacou justamente pelo oposto, mantendo a voz serena para afirmar que o radicalismo de Renan o “assombra”.

Desde então, Cury ganhou 2 milhões de seguidores e passou a receber depoimentos esperançosos de pequenos e médios influenciadores digitais. As buscas pelo nome dele no Google subiram 900% na semana seguinte. De imediato, surgiram suspeitas de uma movimentação orquestrada, algum tipo de coordenação profissional dos influenciadores combinada com a compra de seguidores falsos, como robôs com avatares indianos.

As pesquisas mostram que não dá pra reduzir tudo a uma manipulação das redes. Há engajamento de eleitores reais em torno de Cury. Sua candidatura precisa ser levada a sério.

Isso implica uma encruzilhada. Suas propostas e biografia passarão por um escrutínio rigoroso. Talvez isso leve a uma desilusão, conduzindo sua campanha a um vôo de galinha. Ou ele pode ganhar impulso, se espantar o fantasma da inexperiência no setor público. Será capaz de reunir um time com técnicos e políticos capazes de lhe conferir credibilidade? Resistirá aos ataques dos adversários? Ou será que o Brasil, cansado da polarização, vai recorrer a um psiquiatra da autoajuda?