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João Campos testa o limite da herança

Entrevistado de hoje na sabatina do Diario, ex-prefeito do Recife aposta na associação com Lula. Será suficiente contra uma adversária bem avaliada por entregas?

Por Mano Ferreira

João Campos durante agenda de campanha neste domingo

Brasil afora, muitos candidatos enfrentam o desafio de se tornarem conhecidos. Precisam criar uma história. João Campos vive o oposto. Já entrou na política com a narrativa pronta: “não desistir do Brasil” e realizar o sonho do seu pai, tragicamente interrompido.

A força dramática impulsiona, mas também pode ser um peso. A convicção na predestinação gera um risco de atropelar processos. Na política, afinal, é sempre preciso combinar com o povo.

O povo deu a João a missão de administrar o Recife. Ele abandonou a tarefa no meio, sentindo-se convocado a acelerar o processo em busca do governo do Estado. Nos últimos meses, assistiu a uma impressionante virada da sua adversária: a governadora Raquel Lyra, cuja aprovação de 66% no último Datafolha superou até mesmo os 62% do presidente Lula no estado.

Buscando uma reação, João tem usado basicamente duas armas: a crítica incisiva à gestão e o apoio oficial de Lula. Só que surge um problema estrutural nas suas críticas: o teto de vidro do próprio passado como chefe de gabinete de Paulo Câmara, muito rejeitado.

A simples elipse não tem funcionado. Quando João intensifica as críticas, a comparação imediata ainda recorda o governo que ele mesmo integrou, com resultados piores. Nesse contexto, alguns discursos soam puramente eleitoreiros. Nessa semana, João prometeu financiar a isenção de IPVA vendendo helicópteros adquiridos por Raquel. Só que ele é engenheiro. Sabe que essa conta não fecha, porque a isenção de IPVA seria uma despesa recorrente, enquanto a venda de helicóptero seria uma receita pontual.

O desafio de João, portanto, é construir um discurso que supere a percepção de oportunismo. Para ser efetivo, ele precisa desgastar a gestão de Raquel sem acionar a memória negativa de Paulo Câmara. A aposta mais recente de seus aliados foi o pedido de impeachment contra a vice-governadora Priscila Krause. Mas a estratégia se enfraquece quando um nome como Ivan Moraes (PSOL), insuspeito de simpatias por Priscila, destaca o caráter explicitamente eleitoreiro do pedido, como fez na sabatina de ontem no Diario.

Resta o recurso ao apoio de Lula, mais uma vez evocando à memória de Eduardo, que governou em parceria com o presidente. Esse argumento tem dois problemas. O primeiro é que a própria Raquel também consegue se associar a Lula, mesmo sem declarar voto, ao expressar gratidão pelas parcerias com o governo federal.

O segundo é que, independente da preferência dos pernambucanos por Lula, o cenário presidencial está claramente incerto. Então como ancorar uma eleição a governador na expectativa de parceria com um presidente cuja reeleição está em aberto? E caso o resultado seja adverso? Como ficam as promessas de João caso Flávio Bolsonaro vença a disputa ao Palácio do Planalto?