Ivan aquece a esquerda pós-Lula
Ao desafiar a hegemonia do PSB, o candidato do PSOL, que será sabatinado hoje pelo Diario, finca posição para a disputa de liderança no campo das esquerdas pós-Lula
Ivan Moraes Filho precisou lutar para garantir sua candidatura ao governo de Pernambuco. Mesmo sem grandes chances de vitória pelas pesquisas, Ivan resistiu a uma articulação nacional do PSB, de João Campos, que tentou retirá-lo da eleição. Trata-se, portanto, de uma candidatura de afirmação do PSOL de Pernambuco, delimitando espaços na disputa mais ampla sobre o sentido da esquerda brasileira.
Estamos vivendo a última eleição com Lula. Por décadas, sua liderança nacional exerceu uma força gravitacional aglutinadora sobre o diversificado, e muitas vezes conflituoso, campo das esquerdas. Agora, sua aposentadoria iminente levará a uma grande reorganização do tabuleiro político.
Nesse processo, assistiremos emergir disputas inflamadas, que por muito tempo pareceram menores pela unificação sob a liderança de Lula. Condição muitas vezes imposta por intervenções sobre projetos locais. Quem não lembra das ocasiões em que o PT de Pernambuco atropelou o desejo de sua militância, compondo com o PSB local, em nome do projeto maior de Lula? Foi o caso, por exemplo, da candidatura frustrada de Marília Arraes, que no pleito passado precisou migrar ao Solidariedade.
Por todo país, João Campos é apontado como uma estrela ascendente para o cenário pós-Lula. A alta aprovação da sua gestão na Prefeitura do Recife se soma à capacidade de comunicação digital, ao controle de uma máquina partidária relevante e à mística genética, desde a herança de Miguel Arraes até o projeto presidencial do seu pai, Eduardo Campos, tragicamente interrompido.
Nesse contexto, o PSB juntou peças nacionais para uma guinada ao centro: o vice-presidente Geraldo Alckmin, a ministra Simone Tebet e a deputada federal Tabata Amaral. São quadros que ajudam a fincar no partido uma identidade de centro-esquerda moderada.
Quando o PSOL de Pernambuco bate o pé para disputar contra o PSB, afirma outra identidade, mais reconhecida no campo da esquerda radical. Não à toa, essa marca aglutina grandes apostas eleitorais do partido à Câmara dos Deputados esse ano, como Sâmia Bonfim (SP), Glauber Braga (RJ), Fernanda Melchiona (RS) e um protagonista pernambucano: Jones Manoel.
Nessa esteira, o programa de governo de Ivan é tão ousado nas promessas quanto evasivo na matemática: Renda Básica Estadual, Tarifa Zero no transporte, investimento de 10% do PIB em educação, criação de novas estatais, como a Empresa Pernambucana de Cinema. E ainda: universalizar o saneamento revertendo a concessão da Compesa, mas sem quebra de contrato. Como é possível, Ivan? E de onde vem o dinheiro?
Se o PSOL deseja ser alternativa séria para liderar a esquerda, precisa começar a apresentar suas contas. Quando a promessa bonita encontra a aritmética do poder, o que sobra?