Garimpo ilegal: Operações desativam 15 pistas clandestinas e apreendem 10 aeronaves em três meses
Só neste período, as 1.391 ações causaram um prejuízo de mais de 67 milhões aos criminosos. Também foram inutilizados 67 acampamentos, 14 balsas e 15 embarcações
O combate ao garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami, em Roraima, atingiu um dos principais pontos de sustentação da atividade criminosa na região nos últimos quatro meses. Entre julho e outubro, operações coordenadas pelo Governo Federal retiraram de circulação 10 aeronaves, inutilizaram 15 pistas de pouso clandestinas e desmobilizaram dezenas de estruturas utilizadas para manter a exploração mineral dentro e no entorno do território indígena.
O balanço divulgado pela Casa de Governo aponta 1.391 ações realizadas no período, com um prejuízo estimado em R$ 67 milhões para os grupos envolvidos no garimpo. Seis aeronaves foram inutilizadas e outras quatro, apreendidas.
A ofensiva também atingiu a estrutura terrestre e fluvial usada pelos garimpeiros. Foram inutilizados 67 acampamentos, 14 balsas e 15 embarcações, além de aproximadamente 8,8 toneladas de cassiterita e 12 mil litros de diesel. As equipes apreenderam ainda 92,8 quilos de mercúrio e 5.050 litros de gasolina.
A estratégia adotada pelo governo tem como um dos principais objetivos interromper o abastecimento das áreas de exploração. Em uma região extensa e de difícil acesso, o garimpo depende de uma rede de aeronaves, pistas clandestinas, embarcações, combustível e pontos de apoio para transportar trabalhadores e equipamentos.
Por isso, parte das operações ocorre fora dos locais de extração. Áreas rurais e oficinas de manutenção de aeronaves em Boa Vista, por exemplo, passaram a ser fiscalizadas por suspeita de participação na cadeia logística do garimpo.
Aeronaves entram na mira
Um dos casos ocorreu em agosto, na zona rural de Mucajaí. Uma equipe da Força Nacional encontrou um Cessna 182F em uma estrada vicinal, onde havia pessoas preparando o abastecimento da aeronave. Com a aproximação dos agentes, elas deixaram o local.
O avião acabou inutilizado pelo Ibama. No ponto de apoio foram encontrados cerca de 600 litros de combustível de aviação, além de equipamentos utilizados na navegação e comunicação, entre eles GPS, rádio e uma antena Starlink.
Em outra ação, na região de Apiaú, os agentes localizaram milhares de litros de combustíveis armazenados para abastecer a atividade ilegal. Foram encontrados 2.600 litros de diesel, 550 litros de gasolina e 300 litros de querosene de aviação. Também havia peças de aeronaves, ferramentas, equipamentos de comunicação e alimentos.
A fiscalização chegou ainda às oficinas instaladas em Boa Vista. Entre setembro e outubro, três aviões Cessna 182 foram localizados e apreendidos em estruturas de manutenção consideradas relacionadas à logística do garimpo.
Pistas clandestinas são alvo estratégico
A destruição das pistas de pouso é outro eixo das operações. Entre 20 e 27 de setembro, a chamada Operação Pouso Zero ocupou nove pistas clandestinas dentro da Terra Yanomami. A intenção era impedir que esses locais continuassem sendo utilizados para levar combustível, equipamentos e pessoas para as áreas de exploração.
Aeronaves são especialmente importantes para a atividade porque permitem superar as grandes distâncias e a dificuldade de acesso ao território. Sem pistas e aviões, o transporte de suprimentos para determinados pontos do garimpo se torna mais difícil e caro.
O combate também alcançou as rotas fluviais. Em julho, militares realizaram patrulhamento e bloqueios nos rios Branco, Uraricoera e Uraricaá, além de áreas próximas a locais de exploração. Balsas e embarcações utilizadas pelos garimpeiros foram inutilizadas durante as ações.
Mercúrio e combustível apreendidos
A ofensiva atingiu também materiais essenciais para a operação do garimpo. O mercúrio está entre os produtos de maior preocupação ambiental por ser utilizado na separação do ouro e poder contaminar água, solo, animais e comunidades expostas.
Em setembro, a Polícia Rodoviária Federal apreendeu aproximadamente 34,5 quilos do metal em Boa Vista. O material havia sido transportado de Lethem, na Guiana, e o motorista foi preso em flagrante.
Outras apreensões ocorreram em outubro. Em uma semana, as equipes encontraram 58 quilos de mercúrio e uma aeronave, além de 2.200 litros de combustível de aviação. Em outra etapa das operações, foram apreendidos mais 500 gramas do metal.
A quantidade de combustível retirada de circulação também é significativa. Além das apreensões, milhares de litros de diesel, gasolina e combustível de aviação foram inutilizados ao longo das operações.
Queda na abertura de novas áreas
Segundo o Governo Federal, o conjunto das medidas adotadas desde 2024 provocou uma redução de 99% na abertura de novas áreas de garimpo na Terra Yanomami. O número é baseado no monitoramento da região realizado pelo governo e não significa que toda a atividade garimpeira tenha desaparecido do território.
Desde março de 2024 até outubro deste ano, foram contabilizadas 12.296 ações de combate. Nesse intervalo, 66 aeronaves foram apreendidas ou inutilizadas, 109 pistas de pouso foram destruídas e 992 acampamentos foram desmobilizados.
O prejuízo estimado à atividade ilegal desde o início desse período chega a R$ 815 milhões, segundo o balanço oficial.
A manutenção das operações, contudo, continua sendo apontada como necessária pelo governo. A experiência na região mostra que estruturas destruídas podem ser reconstruídas e que a atividade ilegal pode migrar para outras áreas quando a fiscalização diminui.
Na prática, o cerco passou a mirar menos apenas o ponto onde o minério é retirado e mais a rede que permite que o garimpo continue funcionando. Aeronaves, pistas, combustível, oficinas, rios e acampamentos fazem parte dessa cadeia.
A Terra Indígena Yanomami possui cerca de 9,6 milhões de hectares nos estados de Roraima e Amazonas e é uma das maiores áreas indígenas do Brasil. A exploração mineral ilegal no território ganhou escala nos últimos anos e provocou impactos ambientais e sanitários entre os povos indígenas que vivem na região.
- Alexandre Pires é alvo de operação da PF que investiga garimpo ilegal na Terra Yanomami
- Treze trabalhadores morrem em colapso de mina ilegal na Colômbia
- Nova corrida do ouro ameaça terras protegidas da Amazônia
- No Dia dos Povos Indígenas, organizações cobram demarcações e proteção
- Governo Lula anuncia 10 novas reservas indígenas após protestos na COP-30