Enchentes podem deixar cidades sem água potável, enquanto secas ameaçam abastecimento
Especialistas alertam para avanço dos eventos extremos e defendem infraestrutura mais resiliente para garantir serviços essenciais no Brasil
SÃO PAULO - O excesso de água também pode provocar falta de água. Em cidades atingidas por enchentes, as estações de tratamento podem ser inundadas e interromper o fornecimento de água potável. Ao mesmo tempo, períodos prolongados de seca e estiagem já ameaçam o abastecimento urbano e a produção agrícola em diferentes regiões do Brasil. Os dois extremos foram apontados como desafios para a infraestrutura brasileira durante workshop promovido pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS), nesta sexta-feira (7), em São Paulo.
“Em geral, as enchentes acarretam falta de água potável. Você destrói os sistemas de tratamento de água”, afirmou Gesner de Oliveira, do Instituto Reúso de Água. Segundo ele, a experiência mostra que, em alguns desastres, o principal problema provocado pelo excesso de água acaba sendo justamente a falta de água tratada. O especialista defendeu que cidades tenham estruturas capazes de garantir o abastecimento emergencial após eventos extremos.
A discussão fez parte do workshop “Infraestrutura Resiliente: estratégias para garantir serviços essenciais em tempos de mudanças do clima”, realizado no Hotel Pestana. O encontro reuniu jornalistas e especialistas para discutir os impactos da crise climática sobre serviços essenciais e as medidas necessárias para adaptar o país.
De acordo com dados apresentados por Gesner, a maior parte dos danos provocados por desastres climáticos no Brasil está associada a episódios de seca e estiagem. O problema não se restringe ao semiárido nordestino. A região de Manaus, na Amazônia, também aparece em situação crítica de segurança hídrica devido à ocorrência de secas severas. Em 2024, o Rio Negro registrou uma seca recorde.
Os eventos extremos também têm impacto direto sobre a atividade econômica e a população. Segundo dados apresentados no encontro, nove em cada dez municípios brasileiros registraram pelo menos um desastre climático entre 1991 e 2024.
Risco difícil de prever
Para Maria Neto, diretora-executiva do iCS, o avanço dos eventos extremos exige uma mudança na forma de planejar obras e investimentos. Segundo ela, os riscos climáticos estão se tornando mais intensos e frequentes, mas não é possível prever com precisão onde e quando eles ocorrerão.
A incerteza, na avaliação da diretora, precisa ser incorporada às decisões sobre infraestrutura, agricultura e gestão pública. Para isso, ela defendeu uma infraestrutura digital pública que reúna e facilite o acesso a dados sobre riscos climáticos produzidos por instituições como Cemaden, Embrapa e Inpe.
“Não vamos ter no curto prazo os dados perfeitos, mas a gente pode sempre facilitar o acesso”, afirmou.
A ideia é permitir que gestores públicos, agricultores, bancos e investidores tenham informações capazes de orientar decisões sobre onde investir, produzir ou priorizar medidas de adaptação.
Mais água para enfrentar a seca
Uma das alternativas apresentadas por Gesner para aumentar a segurança hídrica é a expansão do uso de água de reúso. Segundo dados apresentados no workshop, apenas 1,5% da oferta de água no Brasil é atualmente proveniente de reúso.
O especialista defendeu que a água de esgoto tratada seja incorporada de forma mais ampla ao abastecimento de atividades produtivas, especialmente agricultura e indústria. Um estudo apresentado por ele aponta que, em Ribeirão Preto (SP), a água de reúso poderia atender 15% da demanda por irrigação, 20% da demanda por água potável e 75% da demanda industrial.
Na avaliação de Gesner, ampliar a infraestrutura de reúso reduziria a vulnerabilidade das cidades em períodos de seca e também poderia diminuir o custo de mecanismos de proteção financeira contra desastres.
Seguro contra eventos extremos
A proteção financeira também entrou no debate. Segundo os dados apresentados, apenas 9% das perdas provocadas por eventos climáticos no Brasil são cobertas por seguros.
Gesner defendeu a ampliação dos chamados seguros paramétricos, em que a indenização é acionada a partir de parâmetros previamente definidos, sem a necessidade de uma avaliação detalhada dos danos.
“O seguro paramétrico não tem um longo clausulado. Ele simplesmente estabelece: 120 dias sem chuva, eu pago um determinado valor. E não discute o que foi feito, o que não foi feito, se você adotou as medidas corretas ou não. Ou seja, torna o custo de transação mais baixo e torna a compensação mais rápida”, explicou.
Para o especialista, a combinação entre prevenção, infraestrutura resiliente e proteção financeira pode reduzir os impactos dos eventos extremos. “O prêmio seria menor não porque a seguradora é boazinha, mas porque o risco de dano é menor. Porque a cidade tem uma infraestrutura resiliente”, afirmou.
O workshop do iCS teve início na quinta-feira (6), com debates sobre adaptação climática e transição nos setores de agropecuária, energia e indústria. A programação desta sexta-feira foi dedicada aos desafios da infraestrutura diante de um cenário de eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes.