° / °
Cadernos Blogs Colunas Rádios Serviços Portais

Minissérie 'Independências', da TV Cultura, desconstrói mitos em mergulho na nova historiografia

Por

Buscando conhecer diferentes facetas da história contada para os brasileiros há tanto tempo, Independências, que começa a ser exibida neste 7 de setembro que marca os 200 anos da Independência do Brasil e contará com 16 episódios exibidos semanalmente até o fim do ano, funciona não apenas como uma celebração dessa data mas também como uma maneira de proporcionar aos telespectadores uma conexão humana com figuras historicamente elevadas à condição de mito. Estrelada por Antônio Fagundes (D. João VI), Daniel de Oliveira (D. Pedro I), Isabél Zuaa (Peregrina), Gabriel Leone (D. Miguel) e grande elenco, a minissérie se passa no início do século XIX, precisamente em 1808, momento decisivo em que a família real foge em direção ao Brasil.

O projeto vem sendo gestado há cerca de um ano, com o convite inicial da emissora ao diretor Luiz Fernando Carvalho, que já havia feito outros trabalhos históricos reconhecidos como Os Maias e Capitu, para a TV Globo, para que realizasse um trabalho voltado para a comemoração dos dois séculos de independência, que seria baseado na pesquisa realizada pelo jornalista José Antonio Severo. O diretor, em parceria com o dramaturgo Luís Alberto de Abreu, passou a colocar em prática o desejo antigo de explorar o Brasil do século XIX e o potencial do conhecimento dos conflitos da época para o entendimento do país de hoje. 

A contramão proposta por Luiz Fernando ao convite da TV Cultura foi uma dramaturgia focada na chamada nova historiografia, que possibilitaria a inclusão de todos os sujeitos que foram sendo apagados da versão original com o passar das décadas - visão amplamente acatada pela produção. Com abordagem teatral e cheia de dilemas morais enfrentados por cada um dos personagens, Independências mergulha em dados históricos precisos para então desconstruir ideias solidificadas sobre algumas figuras e revela pensamentos que se perpetuaram até os dias atuais.

O formato de 16 episódios deu liberdade para que o diretor explorasse sobretudo o muito caro tema do colonialismo com deliberada cautela, apresentando o semblante poderoso daquelas figuras como uma superfície a ser estudada para então começar a mostrar sentimentos mais íntimos. “São personagens frágeis, quebrados, incompletos, cheios de conflito e de intensidade, mas comumente glorificados pela história e retratados de maneira unidimensional. A intenção da minissérie era justamente aproximar a plateia de todos eles a partir de suas contradições, sejam elas de ordem política ou psíquica”, afirma Luiz Fernando, ao Viver.

Apesar de já ter trabalhado com outros projetos passados no período, o diretor revelou também que nunca aprendeu tanto sobre o país e sua história quanto em Independências, e espera que as pessoas consigam tirar um proveito parecido ao assistirem a minissérie. “Além de ter compreendido muita coisa sobre o Brasil ao longo do processo, também pude aprender muito sobre a condição do artista ao contar uma história. Em nenhum outro eu me aprofundei tanto nessa arqueologia dos personagens e tenho que dizer que foi triste e trágico, pois percebi dessa forma que ainda lidamos com toda essa fantasmagoria. Por outro lado, a gente nota o tamanho do potencial que a nação tem se conduzida da maneira certa”, ressalta. “No meu entender, esse olhar diferenciado sobre a história não poderia encontrar melhor forma de veiculação do que uma televisão pública, que tem o dever sobretudo de educar e levar à reflexão”.