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'Batman' ganha seu mais original filme a partir de jogo entre luz e sombra

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'Batman', dirigido por Matt Reeves, tem pré-estreia nesta terça-feira
Em seus mais de 80 anos de existência na cultura pop, a figura do Batman já percorreu as mais diferentes mídias, das antigas HQs aos mais avançados videogames, protagonizando muitos produtos celebrados. Talvez, o principal mérito das mais exitosas adaptações das histórias do maior detetive do mundo esteja em saber potencializar os elementos de seu universo que melhor conversam com as diferentes linguagens dos diferentes meios. Nos videogames, por exemplo, a série Arkham joga com a ideia de se ter o controle, elemento básico desse suporte, para propôr uma experiência pautada no dominar os espaços, em especial, de forma despercebida, um dos grandes recursos do homem-morcego. 

Essa mesma busca estética vem sendo feita de forma intensa no cinema, em especial nos últimos 30 anos. E, com a estreia de Batman, dirigido por Matt Reeves, nesta quinta-feira, ela parece ter alcançado seu mais alto patamar justamente ao potencializar aquilo que o universo estético do personagem compartilha de mais profundo com a linguagem artística do meio no qual está sendo adaptado. O novo filme do cavaleiro que não por acaso é das trevas abraça o jogo entre luz e sombras, um dos princípios mais básicos do cinema, como principal ferramenta de seu espetáculo em diversas esferas, alcançando o mais original capítulo de sua existência cinematográfica.

Retornamos a mais uma versão de Gotham City, cidade escura e tomada por poderes paralelos do submundo do crime que controlam o poder. Mas alguém se rebela nas sombras, sob alcunha de Charada (Paul Dano) e começa a assassinar importantes autoridades e revelar os podres da política local. Cabe então ao vigilante mascarada Batman, alter-ego do bilionário Bruce Wayne (Robert Pattinson) a investigar os crimes e desvendar uma intrincada rede de intrigas e corrupção que se ligam ao seu próprio passado, contando com a ajuda da gatuna Selina Kyle (Zoe Kravitz), do policial Gordon (Jeffrey Wright) e do mordomo Alfred (Andy Serkis). (CONTINUA APÓS VÍDEO)
 
 

A partir dessa densa drama, Reeves abraça uma gama de elementos estéticos que conversam diretamente com sua proposta de jogo entre sombras e luz. A referência mais óbvia é o noir ou o neonoir, mas também bebendo nas fontes do gótico, do grunge, do clubber e do emo. Ele se afasta completamente da sanha realista e militarista proposta por Christopher Nolan, quase estéril, que chegou a ser classificada como “densa”, mas não chega perto da real densidade proposta neste novo capítulo. O primeiro Batman da década não tem pudores em mergulhar no melodramático, no sentimentalismo e no erotismo dramático e visual para lidar com suas dinâmicas de tentar jogar alguma luz em sombras físicas e psicológicas.

É palpável demais como a direção consegue dar diferentes dimensões àquele mundo e seus habitantes. A decupagem faz questão de materializar, por exemplo, o peso da presença física do Batman a partir do excelente trabalho corporal de Robert Pattinson. Seu estar em cena parece fazer o mundo ao redor correr mais devagar, seus movimentos tem sons bem desenhados, seu olhar tem uma estabilidade desnorteadora. Ao mesmo tempo, dramaticamente e fisicamente é entregue uma das versões mais vulneráveis do personagem, que parece incutir diretamente seus traumas em sua corporalidade da ação, sendo dominante, claro, mas também muito exposto a erros e a surras. (CONTINUA APÓS IMAGEM)
 
 

E mais uma vez, Gotham City passa a ser tão protagonista quanto seu vigilante. Algo que é possibilitado por finalmente uma adaptação cinematográfica do Batman que é essencialmente um filme de detetive, por mais que Reeves saiba lidar com o espetáculo da ação e o faça aqui. A abordagem investigativa faz do principal conflito narrativo o conhecer a cidade e seus segredos, fazendo o jogo de luz e sombras ir da imagem ao drama de forma simbiótica. Reeves não tem pressa e percorre por quase três horas a escuridão do espaço noturno e chuvoso, permitindo que as poucas e rápidas luzes, das explosões, dos tiros, dos giroflexes, das telas e das festivas estroboscópicas nortearam o espetáculo.

O filme de investigação possibilita toda essa dinâmica visual e dramática interligadas justamente por ser calcado na ideia de adentrar as sombras para tentar resolver as coisas. É uma abordagem que está na essência do personagem e traz um arsenal estético poderoso, mas que nunca alcançou plenitude no cinema até este novo filme. Reeves mostrou que ser denso não é ser apático ou tentar sufocar o melodrama a partir de uma cartilha realista capenga. Não é preciso ignorar o quão caricatural é um homem vestido de morcego investigando crimes ou um líder criminoso que se porta como um pinguim, mas buscar onde está o espetáculo humano e cativante nisso tudo, atiçando a curiosidade a partir do que podemos ver nos lampejos de luzes nas sombras.