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'Licorice Pizza' abraça a doçura de um amor jovem que vaga pelo mundo
O intenso cinema de Paul Thomas Anderson vem se detendo em certas investigações sobre almas humanas consumidas umas pelas outras, se balançando entre o que há de mais sufocante e vazio em existir no mundo. Mas, em diferenciados graus, seu cinema também é permeado por pinceladas de ternura e doçura, às vezes como breves respiros, outras como catálise, a exemplo de Embriagado de Amor, de 2002. E, depois de uma temporada produções imersas nesses confins da alma humana, em especial a trinca Trama Fantasma (2017), Sangue Negro (2007) e O Mestre (2012), o cineasta faz o que há de mais vivo em seu cinema se reencontrar em Licorice Pizza, estreia deste semana nas salas do Recife e também um dos grandes concorrentes do Oscar deste ano.
É a primeira vez que Thomas Anderson toma a juventude e o amadurecer como principal motivo dramático em sua obra. Licorice Pizza gira em torno dos encontros e desencontros do adolescente Gary Valentine, um jovem ator metido à empreendedor, com Alana, uma moça mais velha que vive de pequenos trabalhos e acaba se juntando à sanha de negócios do jovem. Juntos, ambos vão pra cima e pra baixo pela cidade, vivendo pequenas aventuras enquanto lidam com o ser adulto e um estranho romance que sempre ameaça nascer entre eles.
É nesse vagar pelo mundo, um mundo tão específico como a Los Angeles dos anos 1970 com suas estranhezas, que Licorice Pizza cozinha sua densidade dramática, colocando os dois jovens como âncora um do outro perante seus desajustes com a vida adulta e o mundo. O vagar que se casa com uma das principais assinaturas formais de Thomas Anderson, a câmera que foge da estaticidade e acompanha os movimentos de seus personagens pelos mais diversos espaços. São planos longos que se equilibram com excelência na corda bamba entre o contemplativo e o dinâmico. Aqui, essa postura da câmera encontra sua justificação nesse descobrir do mundo e dos espaços, que passam por bastidores de programas de TV, feiras de cultura pop, lojas de colchões e as ladeiras de Los Angeles.
Vemos uma atmosfera dramática e visual que parece conversar com títulos como Era Uma Vez em Hollywood, de Quentin Tarantino, diretor da mesma geração noventista de PTA que também fugiu das faculdades de cinema. Mas se o vagar de Tarantino por Los Angeles, que carrega de certa forma também uma doçura, é pautado por uma certa melancolia de um tempo que não existe mais, Licorice Pizza se deixa carregar pelo otimismo de se ter um mundo pela frente, de se permitir descobri-lo enquanto seus protagonistas se descobrem, estando aberto aos encontros, ao absurdo, às caricaturas e às pequenas aventuras banais.
Aqui, o que importa não são os grandes conflitos existenciais e interpessoais, mas é justamente a efemeridade desses pequenos momentos, de empreitadas malfadadas que logo acabam, de pequenas conquistas, atritos bobos e surpresas passageiras. O estar junto um do outro é soberano no drama e que a mise-en-scène do cineasta consegue revestir essas banalidades e passeios com um tom até épico, reforçando a grandiosidade dos pequenos momentos.
E esse reencontro com a ternura é imensamente facilitado pela dupla de atores estreantes Alana Haim e Cooper Hoffman. O jovem, por sinal, é filho de Philip Seymour Hoffman, falecido em 2014 e um dos nomes mais recorrentes na obra de Paul Thomas Anderson e, que por sua vez, também protagonizou momentos de imensa ternura nos trabalhos do cineasta, como em trabalhos como Magnólia e Boogie Nights.
Haim e Hoffman se entregam com vontade a uma vivência boba da juventude, entregando intensidade nas birras, na descoberta da sedução e na vivência dramática e onírica do amor juvenil, que o granulado da película de 35 mm nas tardes e noites de Los Angeles acaba reforçando essa atmosfera de sonho. Licorice Pizza acaba não sendo apenas um respiro dentro do conjunto da obra de seu criador, mas também um respiro que, a partir de sua estética, faz a gente voltar a sonhar em poder andar livremente por aí e redescobrir o mundo após anos tão claustrofóbicos.