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Popular pelas frases de efeito, cronista Nelson Rodrigues tem citações reunidas em livro

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Até quem nunca leu um livro ou uma peça de Nelson Rodrigues, mesmo sem saber, cita frases e expressões do recifense. Isso porque, ao longo da trajetória, o autor fez questão de sempre utilizar orações que pudessem se tornar inesquecíveis para além das publicações e adaptações televisivas e cinematográficas, como “o brasileiro é um feriado”.

A temática do cotidiano, a força do conteúdo e a repetição — Nelson Rodrigues reescrevia as próprias frases com o passar do tempo — foram três grandes aliadas na popularização dos pensamentos de Rodrigues, como explica a editora Janaína Senna, responsável pela organização do livro Só os profetas enxergam o óbvio, ao lado do crítico e ensaísta André Seffrin.

Para ela, esses são alguns pontos para que as palavras de Nelson se tornassem marcantes: “Primeiro, porque tinham força de aforismo; depois, porque eram geniais, engenhosas e, ao mesmo tempo, simples; também porque muitas vezes eram polêmicas e engraçadas”.

Como forma de contemplar essa veia da literatura rodriguiana, Janaína e Seffrin se debruçaram numa pesquisa na obra do mestre apaixonado pelo Fluminense. “Partimos das frases mais conhecidas, muitas vezes citadas de forma imprecisa e sem os devidos créditos, justamente para corrigir isso. Depois somamos a elas a minuciosa pesquisa feita pelo crítico literário André Seffrin, que releu todos os livros do Nelson, repassou suas entrevistas e ainda percorreu crônicas só publicadas em jornal com o olhar voltado para os temas mais comumente abordados pelo autor”, completa Janaína.

Organização
As frases que integram o livro foram divididas em 14 capítulos. Estão na obra, expressões de diferentes temas retiradas de crônicas publicadas nas coletâneas Memórias: a menina sem estrela; Óbvio: ululante; A cabra vadia; A vida como ela é...; e O reacionário: memórias e confissões; assim como nos romances A mentira e O casamento. O futebol, um dos temas preferidos de Nelson Rodrigues, aparece nos trechos compilados de O berro impresso nas manchetes; Brasil em campo; e A pátria de chuteiras. As falas das peças, como Bonitinha, mas ordinária; Toda nudez será castigada; Vestido de noiva; O beijo no asfalto; e Boca de Ouro, também estão no livro. Para encerrar, há trechos de entrevistas dadas pelo escritor.

“A obra de Nelson é tão rica em frases de efeito, que essa seria uma antologia quase infinita. Poderíamos reunir 1.000 páginas ou mais com as suas melhores frases”, comenta Seffrin. O crítico destaca que, se tornar um frasista, era uma intenção de Nelson. “Ele tinha obsessão pela frase de efeito e seu temperamento um tanto hiperbólico contribuía bastante para isso. Ele encarava a crônica quase como um baú de boas frases, de achados cheios de ironia e sarcasmos, onde às vezes cabiam também a picardia, o nonsense”, analisa.

A publicação evidencia a constante mudança de opinião de Nelson, que ia adaptando as próprias frases. “Essas mutações estão em toda a obra de Nelson, no teatro, nos romances, nos contos, nas crônicas, nas entrevistas. Pode-se até dizer que Nelson, como personagem de si mesmo, se reinventava em cada nova fase e suas variantes”, classifica Seffrin.

Questionado sobre o que Nelson escreveria nos tempos de hoje, o crítico afirma ser difícil imaginar: “Mas certamente ele fustigaria com igual vigor este nosso tempo contraditório e por vezes sem graça”. E ainda completa dizendo que a literatura brasileira ainda é órfã de escritores como ele, “corajosos e irreverentes”. Já Janaína acredita que os temas seriam os mesmos, citando “futebol, política, cultural, amor e conflituosas relações humanas”. Ou seja, tudo que é universal.

Só os profetas enxergam o óbvio: frases inesquecíveis de Nelson Rodrigues. 
De Nelson Rodrigues. 
Apresentação André Seffrin. 
Nova Fronteira, 128 páginas. 
Preço médio: R$ 23.


» Frases inesquecíveis

» “Toda a unanimidade é hedionda”

» “O gênio tem, por vezes, a nostalgia do imbecil”

» “O homem de bem é um cadáver mal-informado. Não sabe que morreu”

» “Eis uma verdade eterna: — O passado sempre tem razão”