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Cine Ceará: Era Uma Vez na Venezuela discute política através de uma vila

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Foto: Divulgação
Tamara, líder chavista da comunidade Congo Mirador


Fortaleza - Uma pobre vila aquática chamada Congo Mirador se transforma no palco de dilemas, mazelas e contradições da Venezuela no documentário Era Uma Vez na Venezuela, de Anabel Rodríguez. Atualmente, o país tem sido personagem central na discussão da geopolítica na América Latina. No caso do Brasil, onde parte da população insiste na existência de uma possível "ameaça comunista", esse imaginário é ainda mais presente na esfera pública, porém repleto de estereótipos e preconceitos. É por isso que o documentário se torna tão interessante para os brasileiros: ele tem a visão de uma venezuelana, não tem uma narrativa partidária e expõe sutilmente questões que são comuns aos países latino-americanos.

Exibido em festivais como Sundance, HotDocs, Toronto e Miami, a obra foi destaque do 30º Cine Ceará - Festival Ibero-Americano de Cinema na noite desta segunda-feira (7). A diretora esteve presente no evento. Era Uma Vez na Venezuela foi selecionado pelo próprio país para concorrer a uma vaga na categoria de filme estrangeiro no Oscar. Vale ressaltar que a co-produção conta com a Pacto Filmes, que tem a presença de pernambucanos como Malu Campos e Hilton Lacerda.

O Congo Mirador, que não difere muito de uma comunidade de palafitas do Recife, fica ao sul do Lago Maracaibo, o maior campo petrolífero da Venezuela. Apesar de tanta riqueza, os benefícios não chegam até os moradores. Pelo contrário, a extração degrada a natureza da vila, que depende de sua água e vida marinha. Uma das cenas impactantes é aquela em que crianças limpam o petróleo do corpo após uma tarde de nado.

De início, o filme parece ser uma captura antropológica da comunidade, com registros audiovisuais do cotidiano de moradores, exibindo os interiores de seus lares. Mas esse não é um filme simplesmente denunciativo sobre as condições de miséria. Era Uma Vez na Venezuela é um filme sobre política no cotidiano. Isso é interessante diante de um certo vácuo, por parte da mídia brasileira e ocidental, na exposição da opinião real dos venezuelanos sobre o contexto político do país.


No período de cinco anos de gravação, o documentário chegou até as vésperas das eleições parlamentares de 2016. De acordo com a diretora, esse foi o último evento democrático do país - no ano seguinte, uma Assembleia Constituinte ajudou a perpetuar o Nicolás Maduro no poder e neutralizou a oposição. Assim, o filme é também o registro de um importante momento político do país. 

Tamara, uma fervorosa defensora do legado de Hugo Chavez, é a líder do governo chavista na comunidade. A oposição, por sua vez, aparece através de Natalie, uma professora da única escola da vila. Ela se sente perseguida por defender um afastamento do chavismo na sala de aula e é bastante querida pelos alunos. Apesar das diferenças, ambas trabalham no mesmo objetivo: melhorar a situação do Congo Mirador. Tamara tenta ir atrás de autoridades para que a comunidade não desapareça com a poluição, enquanto a professora luta pela melhoria da educação. E é também pelo fracasso de ambas que a película fragiliza o espectador.

Apesar da tentativa de seguir adiante com naturalidade, a ausência do estado, a corrupção, a destruição do meio ambiente e o desdém do poder público sufocam o Congo Mirador. É quando aquela pequena vila em um local tão remoto e esquecido deixa lições e reflexões para todos os latino-americanos, socialmente e politicamente.