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100 anos de Clarice Lispector: vestígios deixados pela escritora ainda ecoam no Recife

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Foto: Reprodução da internet
A escritora chegou ao Recife com 5 anos acompanhada de sua família, e viveu por dez anos em um sobrado na Praça Maciel Pinheiro


O vento mexendo os bibelôs na estante do sobrado, o farfalhar da vassoura limpando a poeira no imóvel de número 387, na Praça Maciel Pinheiro, no Centro do Recife, a cidade presente nas obras de Clarice Lispector. Hoje, dia em que a escritora ucraniana completaria 100 anos, resgatamos alguns de seus escritos e cruzamos com as memórias da capital pernambucana nos anos 1920 para entender as marcas deixadas pela chegada de uma então criança de 5 anos. Da passagem entre os anos 1925 a 1935, Lispector nos cedeu seu olhar ávido para descobrir a rotina, explorar os detalhes, a efervescência cultural e os mecanismos das máquinas e vias em pleno desenvolvimento. Criou um Recife a partir de sua visão e nos entregou uma cidade marcada pela sua sensibilidade e afeto.

A vida e a obra de Lispector se interligam profundamente, cruzadas pelo contexto histórico, cultural, social e econômico de um Recife dando os primeiros sinais de modernização. Em artigo recente, o mestrando em história Henrique Inojosa Cavalcanti analisa como o Bairro do Recife estava sendo reformado no período.

“É possível fazer uma viagem histórico-afetiva ao tempo de Clarice e do Recife nas décadas de 1920 e 1930. Em sua obra, identifica-se um Nordeste visto pelo olhar de uma criança ansiosa pelas possibilidades e descobertas da cidade. Existiam também angústias com problemas de saúde da mãe e situação financeira. À sua maneira, aquela criança criativa e alegre sabia aproveitar o que o Recife tinha a lhe oferecer. A felicidade que sentia de estar com a família nos banhos de mar em Olinda, no prazer de ler, no carnaval, estão todos presentes”, diz. Os vestígios ainda ecoam. No último mês de agosto, a escritora se tornou patrona da literatura de Pernambuco, e em novembro foi reconhecida como cidadã pernambucana.

“De manhã, entre os caminhões que pediam passagem para a nova usina, transportando madeira e ferro, as cestas de peixe se espalhavam pela calçada. Dos sobrados desciam mulheres despenteadas com panelas, os peixes eram pesados quase na mão, enquanto vendedores em manga de camisa gritavam os preços (...) E a pequena igreja cuja arquitetura modesta se ergueu no antigo silêncio. Aos poucos, porém, a praça de pedra se perdeu entre os gritos com que os carroceiros imitavam os animais para falar com eles”. Analisando trechos do livro A cidade sitiada (1949), de Clarice, a arquiteta Amélia Reynaldo encontrou um retrato do Recife. Mesmo sem a cidade estar nomeada ali na obra, a pesquisadora identificou as referências locais, que se estendem a outros contos e crônicas como Restos de carnaval, O passeio da família, Banhos de mar e Felicidade clandestina.

“Mesmo jovem, o Recife plantou uma semente nela, que germinou de uma maneira espetacular e nos presenteou com tudo que ela vivenciou. É preciso agradecer tudo que pode chegar até ela, que tinha sensibilidade e conseguiu traduzir com tanta beleza”, define Amélia. “O que ela relata (em A cidade sitiada) nos leva ao Recife. Começa falando de uma festa religiosa, e há várias igrejas no entorno do sobrado onde ela morava. Um sobrado de esquina, que tinha dois pavimentos e uma loja no térreo. Na sequência, ela fala da praça com chão de pedra, e nos leva a pensar na Maciel Pinheiro. Fala do trem que passa, através do som do trepidar, e ali de fato se passava um importante bonde da cidade. Descreve o cheiro do peixe, a varanda do sobrado e a claridade típica do Nordeste. À medida que você vai lendo o livro e com o conhecimento sobre o Centro na época, é possível ver como se encaixa na forma poética de Lispector.”

Amélia pesquisa o Centro do Recife há mais de 40 anos. De acordo com ela, no período, o Recife tinha cerca de 300 mil habitantes, e 42% da população morava no Centro, e era muito comum que as famílias judaicas que passaram a chegar no Recife em 1910 se acomodassem na região, e a Boa Vista era o reduto onde já estavam muitos. Eles trabalhavam com madeira e costumavam se reunir na praça, onde discutiam temáticas de interesse e revelavam de quais países vinham e os motivos.

“Ao ler seus contos, Clarice consegue me fazer ouvir os sons, a música e os recitais que movimentavam a esquina Lafayette. Eu conseguiria construir uma cidade a partir do que ela diz. É como se aquela cidade tivesse sido feita para ela, e ela para dentro da cidade. É emoção, sentimento, imaginação. É a grande contribuição que ela nos deu”, destaca. “Já vi que é possível entender a cidade através de um escrito, isso acontece, por exemplo, através de uma cartografia. Mas Clarice vai além. A cidade sitiada deveria ser um livro de história da cidade.”

Amélia possui a planta da casa onde a autora morou, e espera que a casa seja restaurada e reerguida o quanto antes. “Eu imagino o local se tornando um espaço vivo, como foi a vida de Clarice o tempo todo. Um espaço interativo, aberto e permanente, que retrate a década de 1920.”



Centro cultural
O sobrado onde Clarice viveu por dez anos com a família está em avançado processo de degradação e abandono, já se constatando perda de elementos arquitetônicos originais. O imóvel pertence, atualmente, à Santa Casa de Misericórdia e está protegido legalmente por meio de tombamento provisório da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), e em análise preliminar no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para tombamento federal.

A Fundação Joaquim Nabuco venceu a primeira etapa do edital para o projeto de recuperação da casa. A Fundaj concorre a recursos junto ao Ministério da Justiça e Segurança Pública no edital sobre Fundo de Direitos Difusos, para restaurar o imóvel e, após a recuperação, abrir um Centro Cultural voltado à memória da escritora.