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Série revisita regiões da África de onde partiram cerca de 5 milhões de escravizados

A produção, em dez episódios, é exibida às sextas, às 20h30, no canal de TV por assinatura Prime Box Brazil. Nesta quarta-feira (13), inclusive, é comemorado o Dia da Abolição - em 13 de maio de 1888, a Lei Áurea foi assinada no país. A série, dirigida por Rozane Braga e roteirizada por Zil Ribas, foi adaptada do livro Do outro lado, de César Fraga, com pesquisa histórica de Maurício Castro.
Na produção, também estão presentes análises de especialistas sobre a resistência para incorporar a cultura ancestral à identidade brasileira. Os dez episódios contam ainda com contos mitológicos narrados pela atriz Zezé Motta, para valorizar a cultura oral africana, transmitida entre gerações. A falecida guardiã do Jongo da Serrinha, Tia Maria, a iyalorixá de São João do Meriti, Mãe Menininha de Oxum, o historiador Alberto da Costa e Silva, o antropólogo Milton Guran e o sociólogo Muniz Sodré são outros entrevistados.
“O projeto começou como um sonho pessoal. Como afrodescendente, queria saber como viviam meus primos lá do outro lado. O que mais me incomodava era essa ausência de informações da África antes do período escravocrata no Brasil. Além de que, como fotógrafo, sempre quis fazer projetos que tivessem relevância, além do caráter estético”, conta César, neto de mulher escravizada. Ele viajou em 2013 com Maurício Castro por nove países das quatro rotas do tráfico transatlântico de Guiné (Cabo Verde, Guiné-Bissau e Senegal), Mina (Gana, Togo, Benim e Nigéria), Angola e Moçambique.
A dupla procurou por vestígios de monumentos, tradições locais e beleza dos povos africanos. “O continente vive uma situação de extrema pobreza, sem dúvidas, mas a realidade que a gente encontrou foi muito mais positiva do que imaginávamos. É de uma riqueza cultural, de cores, de sons. Eu não queria trazer uma África que já existe nos telejornais, queria mostrar que há uma África feliz, dos reis, rainhas. Quando você sabe que os seus ancestrais tiveram esse passado, você quer pertencer a esse local.”
Os dois viajaram apenas com um roteiro geográfico e alguns indícios de onde encontrar vestígios históricos. “Conseguimos fazer a logística a duras penas, porque passamos por países que passaram por guerras civis e que estão muito devastados, e o resultado foi muito além do que eu esperava”, relata. “A gente cavava as pautas, chegava em um país e, durante o almoço, perguntava ao garçom, por exemplo, qual era a música tradicional de lá. Acabamos indo para a casa dele, onde toda a comunidade já estava reunida nos esperando para mostrar como dançava aquela música. Nem acreditamos”, lembra.
Durante a expedição, a chegada na Guiné-Bissau também ficou marcada na memória do fotógrafo. “Fomos até uma comunidade e, quando chegamos, vimos que estavam todos sentados em uma roda. Me sentei, me apresentei e falei sobre o meu projeto. E ouvi de um deles ‘já que você é nosso primo, você vai ficar aqui e vai comer com a gente’. Então, me aproximei e comi com as mãos, observando como eles faziam.”