Como as mulheres pernambucanas têm reinventado o corpo feminino na arte

Em 1863, o júri do Salon de Paris rejeitou a pintura O almoço na relva, de Manet, por mostrar uma mulher nua com dois homens vestidos em um piquenique. A tela, que colocava o corpo nu realista em um ambiente contemporâneo, foi um dos primeiros trabalhos do modernismo e tensionou, pela primeira vez, a produção histórica e alegórica que anteriormente exibia somente a mulher enquanto musa. Assim como nos dias atuais, o número de artistas mulheres nas escolas de arte no período era muito pequeno em relação ao de homens. Para o registro da história, ficaram somente as mulheres brancas que tinham condições financeiras para se firmar dentro do ambiente artístico. Negras e indígenas, por não serem alçadas à categoria de arte, não constam nos arquivos. O corpo feminino, entretanto, sempre esteve presente na arte. Em outro ritmo e buscando a renovação do olhar, os trabalhos artísticos com essa temática têm se fortalecido no cenário contemporâneo. Para marcar o Dia Internacional da Mulher, o Diario reflete sobre a importância de produções artísticas de corpos femininos serem realizadas por artistas mulheres.
Para a artista, ativista e pesquisadora Bárbara Collier, o corpo feminino esteve presente na arte desde o surgimento da sociedade, a diferença é que atualmente as mulheres têm reivindicado a autoria dos registros. “A representatividade do feminino na arte é sempre um corpo nu. As mulheres sempre estiveram presentes na arte representadas por homens brancos, aqueles que foram legitimados e consagrados como artistasao longo da história.” De acordo com Collier, isso tem acontecido porque as mulheres têm buscado se unir e lutar contra o sistema de opressão, conquistando representatividade em vários ramos e requerendo mudanças de políticas públicas."O que é um homem representar um corpo feminino? Ele não sabe o que é engravidar, menstruar, ter um ciclo, correr o risco de ser estuprada", pontua. Segundo a pesquisadora, a diferença do olhar feminino é que ele "apresenta um corpo com todas as suas dores e imperfeições, assim como ele é, porque quando a gente representa nosso próprio corpo, a gente tem mais elementos simbólicos para representá-lo".
EQUAÇÃO DESIGUAL
A discussão ganhou força no Brasil em 2017, quando o Museu de Arte de São Paulo recebeu uma exposição sobre mulheres e expôs um questionamento que ficou impresso em cartazes ao longo das instalações do equipamento: "As mulheres precisam estar nuas para entrar no Masp?" De acordo com os dados expostos no cartaz, reunidos pelo grupo americano de artistas feministas Guerrilla Girls, 6% dos artistas do acervo em exposição são mulheres, mas 60% dos corpos nus são femininos. Formado em 1985, o coletivo tem como objetivo combater o sexismo e o machismo no mundo da arte. "Há uma necessidade de falar sobre o corpo feminino como necessidade de afirmação das mulheres. Há também um patrulhamento coletivo sobre como os corpos são reproduzidos. É preciso expor o corpo para lutar contra o que ainda aprisiona", destaca a pesquisadora Marina Didier.
"Lutar por essa identidade parece redutor, mas infelizmente ainda é necessário. Enquanto ser mulher ainda for colocado como inferior, ainda há necessidade de luta", afirma. Imersa na temática da representação feminina na arte, Marina está desenvolvendo um estudo em sua tese de doutorado sobre “práticas desviantes”, no que se refere a padrões normativos de gênero, buscando identificar relações sutis entre artistas e suas obras. A inquietude surgiu para a pesquisadora quando começou a ref letir sobre o fazer artístico centrado no corpo feminino não ideal.
Para ela, um exemplo que é a arte feminista, categoria associada ao movimento feminista do final dos anos 1960 e 1970, está ligada a uma temática, diferente do impressionismo, que tem uma ligação técnica, o modo de pensar luz e usar as cores, um método. "A arte feminista se refere ao feminino, mas que visão de feminino é essa? Diversas artistas que eu converso falam que não são chamadas para expor suas artes nesses espaços, porque não retratam órgãos sexuais femininos, ou seja, não reúnem a visão reduzida do que é o feminino. Percebi que às vezes alguns artistas muitas vezes são ativistas em suas obras, mas nos ramos das suas vidas não lutam pelas causas coletivas propostas nos trabalhos. Considero essas práticas desviantes", classifica.
PATRULHA MORAL
Para Flora, seu trabalho é muito sobre escutar as questões das mulheres fotografadas, os incômodos e, a partir dessas imagens, ajudar no processo de desconstrução das dores. A fotógrafa destaca o poder do autorretrato como processo de cura interna. “Eu me retratar muito influencia isso, é o que tenho disponível sempre para mim mesmo, é a imagem que se repete e eu testo. Tenho consciência que meu trabalho representa muito mais a mulher branca padrão. Sinto-me mais confortável em mostrar o que eu sou, mas não acho que meu trabalho não busca representar outras mulheres", afirma, destacando que os corpos gordos e negros infelizmente ainda são menos representados em seus trabalhos.
"Também sou mais procurada por mulheres com corpos padrão, isso reflete na maior parte da minha renda como fotógrafa. Me esforço para incluir todos corpos, mas ao mesmo tempo acredito que os trabalhos mais potentes atravessam quem a gente é”, ressalta, exemplificando o trabalho de Helen Salomão, negra e gorda. "Ela fala do que ela é, ela retrata os dela. E eu fico no espaço de aprender e enxergar por outros ângulos”, diz Flora.
OUTRAS CAMADAS
Para a artista visual Ana Lira, antes da discussão de gênero, as barreiras para a construção da trajetória artística foram atravessadas pela questão racial. “Os desafios de ser negra e nordestina ofereceram barreiras mais claras para mim de início. Eu sou vista primeiro por essas duas camadas. Então, eu passo tanto tempo dedicada a desatar os nós para permitir que meus projetos aconteçam, que mal sobra tempo para discutir onde objetivamente esses nós estão ligados ao fato de ser mulher. Às vezes eu consigo perceber logo, outras vezes as fichas caem meses depois”, destaca a artista que que recentemente expôs os trabalhos Chama e Terrane, que conecta em sua maior parte com ações desenvolvidas por mulheres e corpos fluidos. O Terrane é um diálogo com mulheres que constroem cisternas no semiárido. O Chama articula a poética/musicalidade da diáspora negra e isso pede uma abertura na percepção da migração dos nossos corpos e de como produzimos sensibilidades que nos libertam dos resíduos das colonizações.
De acordo com Ana, o importante é se dedicar a produzir e circular as obras. "Acho que é importante fazer e circular porque uma maior presença, principalmente dessas várias noções de 'mulher' e 'feminino' nos ajudam a construir respostas melhores para os desafios que temos na sociedade. Prática artística é lugar de construção de conhecimento e de convivência. Quanto mais a gente amplia as possibilidades, mais amadurecemos como coletivo". A questão racial também está presente no trabalho de Kalor Pacheco que, há quatro anos, começou a desenvolver perfomances a partir de uma residência artística que desenvolveu com profissionais do sexo no Museu do Sexo das Putas, em Belo Horizonte. O trabalho apresenta uma vídeo-projeção que lida com o tema dos órgãos genitais femininos, tratando da relação entre a higiene dos corpos de mulheres e homens no ato sexual usando o sabonete íntimo feminino como metáfora.
"A experiência me fez pensar muito sobre a sexualidade feminina, e o lugar de 'mulata' que a sociedade infligiu às mulheres negras mais miscigenadas feito eu, que foi um lugar relegado não somente à hipersexualização, vide as mulatas 'globeleza', mas também perseguido como um corpo sujo, um corpo feito para a dor", reflete. De acordo com ela, o seu trabalho alcança também se mulheres brancas em sua abordagem, mas que naturalmente há a diferença. "Sempre foi vista como 'mulher pra casar' foram as brancas, enquanto nós somos vistas quase sempre como destinadas ao sexo”.
"Então é sempre importante pensar na multiplicidade do ser mulher, pois mulheres brancas ainda são vistas como humanas nessa sociedade, enquanto que as mulheres pretas e pobres, ainda não foram alçadas a essa categoria. Sinto que somos uma coisa, sabe, e por isso muito da produção artística esteve nos últimos anos falando sobre isso. Porque enquanto umas mulheres, brancas, luta pelo direito de mostrar o corpo, o corpo das mulheres negras e indígenas há séculos vem sendo violado". Atualmente, a artista desenvolve, através do projeto Trova, um trabalho de incentivo para que as mais jovens tenham a possibilidade de adentrar os espaços de arte.