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Documentário sobre bastidores do desfile de samba com Cristo negro é exibido no Recife

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Foto: Divulgação
Cristo Negro da comissão de frente na Estácio de Sá.

A imagem de um homem representando o Cristo negro crucificado foi o ápice do desfile da Escola de Samba Estácio de Sá, no carnaval do ano passado, no Rio de Janeiro. A passagem surpreendente pelo Sambódromo da Marquês de Sapucaí rendeu à escola o título de campeã da série A e a volta ao Grupo Especial deste ano. Os bastidores dessa história dos carnavalescos campeões que fizeram o desfile da Estácio, mesmo com orçamento apertado, são contados no documentário Yo & você - Carnaval do mundo, do produtor cultural pernambucano Henrique Oliveira. O filme, com 45 minutos de duração, é dirigido pelo cineasta venezuelano radicado no Panamá Tavo Chirivella. Será exibido nesta segunda-feira (3), às 19h30, no Cinema da Fundação do Derby. O acesso é gratuito e contará com coquetel de boas-vindas.

O enredo do desfile, A fé que emerge das águas, foi inspirado na devoção ao Cristo negro de Portobelo, no Panamá. Conta a história que pescadores encontraram a imagem flutuando nas águas do Caribe. Já uma outra lenda afirma que um galeão espanhol com duas imagens a bordo - um Cristo negro e um Cristo branco - tentava a todo custo zarpar, mas sem sucesso diante do temporal. Quando decidiram deixar a imagem negra em terra, alcançaram o objetivo. Todo ano, no mês de outubro, acontece a Procissão de Jesus de Nazareno, o Cristo Negro, atraindo milhares de fiéis.

Na época em que a diretoria da escola foi ao Panamá para buscar apoio ao desfile e conhecer de perto a cultura da região, Henrique Oliveira morava naquele país e deu total apoio à iniciativa. Ao longo do processo, envolveu-se com as histórias simples e ao mesmo tempo gloriosas dos personagens por trás da construção do desfile levado ao Sambódromo. Criou um roteiro e tocou as gravações no Rio de Janeiro, com cenas captadas também no Morro de São Carlos, onde fica a escola, considerada a mais antiga do Brasil. “Me chamou a atenção, na época, o sofrimento da escola, que estava sem condições financeiras de fazer um desfile. Isso despertou em mim a vontade de mostrar o trabalho da equipe. Eles fizeram uma espécie de mágica, reciclaram material, reaproveitaram carros alegóricos, tudo para levar o carnaval para a avenida”, comentou Henrique.

O filme foi lançado na quadra da escola no último dia 24. O evento contou com um grande samba. “O documentário faz também uma reflexão sobre a igualdade. Você colocar um Cristo negro em plena Sapucaí é um marco na cultura em uma época de racismo e discriminação. A religião não tem cor. A fé é a mesma, não importa a religião que seguimos”, comentou Henrique.

O documentário é dividido em dez partes. As cenas trazem as fases da composição do desfile. Da escolha do tema a detalhes da pesquisa, da criação das coreografias à definição do enredo e ao significado do carnaval para os integrantes da escola e a comunidade. Passam pelas lentes o presidente da escola, coreógrafo, comissão de frente e outros participantes. O apresentador e ator Ludwik Tapia, muito conhecido no Panamá, participa do documentário.

Em um dos trechos do documentário, a pessoa que representou o Cristo negro, Evandro Machado, conta que encarnar o personagem é como dar um grito de liberdade. “Ele fala de como a crucificação acontece todos os dias na vida das pessoas negras”, pontuou o produtor.

Henrique fechou um contrato com a Copa Airlines para exibir o documentário bilíngue em 80 destinos de 32 países. O filme também será lançado no Panamá, possivelmente em março. O trabalho foi realizado ao custo de R$ 150 mil.

Henrique prestou serviços à ONU, União Europeia, embaixadas e instituições públicas e privadas. No currículo, também está a produção do primeiro Festival de Jazz de Madagascar. Viveu de perto os conflitos armados na guerra civil da República Centro-

Africana, de onde escapou às pressas com a família, sem os pertences e sob risco de morte. Um dos trunfos do documentário, diz Henrique, é mostrar que o enredo do desfile foi construído para tocar as pessoas pela fé. E não pelos corpos de mulheres vestidas com biquínis.

Portobelo
A estátua de madeira de Cristo Negro está localizada na Igreja de San Felipe, paroquial católica romana localizada na cidade portuária de Portobelo, no Panamá. Em tamanho natural, é adornada com uma túnica trocada duas vezes por ano, uma na Semana Santa, outra durante o Festival do Cristo Negro, em 21 de outubro. Uma imagem semelhante, chamada O Nazareno Negro, também é venerada no distrito de Quiapo, em Manila, capital das Filipinas.