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Revolucionária, Bauhaus chega aos 100 anos
Alemanha prepara comemorações da célebre escola de arte, design e arquitetura que lançou as bases do modernismo em diversas áreas e pregava a funcionalidade acima da estética

Após os horrores da Primeira Guerra Mundial, “os artistas se reuniram para criar uma nova forma de arte, com ideias bastante utópicas e idealistas”, explica Anke Blümm, curadora da Fundação Bauhaus, em Weimar. Seguindo a doutrina de “a forma segue a função” – o prático prima sobre a estética –, a Bauhaus desejava criar objetos ou prédios de desenho acessível para todas as classes.
Este ano, Weimar, também conhecida por ser a cidade de Goethe, será o coração das comemorações da Bauhaus no país, e espera atrair turistas de todo o mundo. Um novo museu abrirá suas portas na primavera, e a Haus am Horn, primeira casa branca de teto plano (característica do movimento Bauhaus) construída segundo os princípios da escola, em 1923, voltará a receber o público em maio. O movimento Bauhaus “é uma de nossas exportações culturais mais influentes”, disse o chefe de Estado alemão, Frank-Walter Steinmeier, na largada das comemorações.
REPERCUSSÃO
Quando o regime nazista a proibiu, em 1933, vários artistas deixaram a Alemanha, criando uma diáspora que espalhou a cultura da Bauhaus pelo mundo. As construções com este selo mais conhecidas fora da Alemanha são a sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, com suas linhas puras, ou a Cidade Branca de Tel Aviv, inscrita no Patrimônio Mundial da Unesco, com seus 4 mil apartamentos de fachadas brancas e lisas e esquinas e varandas frequentemente arredondados.
Também há diversos objetos do cotidiano da época, como as famosas cadeiras, e os quadros ou fotografias expostos em museus. Sem levar o selo Bauhaus, as mesas da gigante sueca Ikea e a maioria dos celulares herdaram o seu estilo. Entre os seus pilares, a escola conta com pintores renomados, como o russo Wassily Kandinsky e o suíço Paul Klee, figura do Surrealismo, embora este último tenha acabado se distanciando do movimento, por considerá-lo muito fundamentalista.
A Bauhaus era movida por uma visão reformista, e inspirada nos progressos tecnológicos que se seguiram à Grande Guerra. Para o historiador Winfried Speitkamp, diretor da Universidade da Bauhaus, em Weimar, que continua ensinando os princípios da escola no mesmo câmpus que outrora, o objetivo era construir, através da arte, uma nova sociedade democrática sobre as ruínas do Império Germânico. O movimento coincidiu com uma democracia incipiente e frágil, também nascida em Weimar. “Queriam acabar com a monarquia, muito autoritária e militarista.”
DEBATE
Como a República de Weimar, a Bauhaus tornou-se rapidamente alvo dos nazistas nos anos 1920. “É típico da extrema direita considerar qualquer movimento que propague novas formas de cooperar e criar, uma abertura e diversidade, algo perigoso”, assinala Speitkamp.
Isto embora, como destaca o semanário Die Zeit, o movimento evitasse se comprometer contra os poderes políticos, para, dessa forma, manter o apoio financeiro vital do Estado. “Gropius insistia em que sua Bauhaus não era nem bolchevique, nem judaica, nem alemã”, lembra a publicação, um tanto crítica com a apresentação idílica que se faz do movimento 100 anos depois.
Agora, em um momento de auge nacionalista em vários países da Europa e do mundo, os festejos da Bauhaus dão lugar ao debate. “Queremos seguir o caminho da globalização ou precisamos reforçar nossas fronteiras e definir uma nação por sua etnia?”, questiona Speitkamp. “É disso que se trata o debate em torno da Bauhaus”, assinala, referindo-se a uma polêmica ocorrida no ano passado devido a um show do grupo punk Feine Sahne Fischfilet, ovelha negra da extrema direita no país, no câmpus da Bauhaus, em Dessau, de onde a escola foi expulsa em 1925.
A Fundação Bauhaus cancelou o show na última hora, citando ameaças da extrema direita e uma vontade de se distanciar de “qualquer extremismo político, seja de direita ou esquerda”. A decisão lhe valeu uma chuva de críticas, uma vez que ia de encontro às raízes do movimento. O espetáculo finalmente foi realizado, em um teatro de Dessau, que, como Weimar, encontra-se no território da antiga RDA, hoje reduto do partido de extrema direita alemão AfD. A fundação acabou pedindo desculpas e prometeu continuar sendo “um local transparente, aberto e internacional para os debates da sociedade, segundo o espírito da Bauhaus”.