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Titãs se reinventam em ópera-rock

Com 36 anos de carreira, a banda lança Doze flores amarelas para ver e "ouvir como se estivesse lendo um livro", lançada nas plataformas digitais

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Silmara Ciuffa/Divulgação
Um dos três remanescentes da formação original, Branco Mello encarna um "bom pastor". Foto: Silmara Ciuffa/Divulgação


São Paulo - O que fazer quando se tem 36 anos de carreira, 14 álbuns de estúdio, mais de 220 músicas, mais de sete milhões de discos vendidos, documentário e um Grammy na estante? Algo novo. Mas se a resposta parece fácil, a missão não é nem um pouco. Para fazer a inédita ópera do rock brasileiro, os Titãs levaram cerca de dois anos e meio, entre a ideia e a execução de Doze flores amarelas, lançada há dez dias nas plataformas digitais e com DVD gravado no último dia 12, em São Paulo. Ele chegará às lojas pela Universal Music em 13 de julho, data emblemática: Dia Nacional do Rock.

A banda vai pegar estrada a partir de agosto com o projeto, paralelamente ao trabalho extra ópera. Recife, claro, está na rota. “A gente pretende passar pelo menos em todas as capitais”, afirmou, em entrevista ao Viver, Sérgio Britto, cantor, compositor e multi-instrumentista, um dos três remanescentes da formação original, junto com Branco Mello e Tony Bellotto - o guitarrista Beto Lee e o baterista Mario Fabre completam o grupo.

Para Doze flores amarelas, a banda convidou as vocalistas Corina Sabbas, Cyntia Mendes e Yas Werneck. Elas são as três Marias do espetáculo cênico-musical, cujo tema central gira em torno do machismo e violência sexual. A ópera é dividida em três atos e as 25 músicas, com o selo Titãs de composição, possuem uma sequência de enredo, para se “ouvir como se estivesse lendo um livro”. Entre os capítulos, o link é feito com locução da cantora Rita Lee, mãe de Beto.



No primeiro ato, um aplicativo intitulado Facilitador, um fictício guru virtual, sugere a ida das três Marias para uma festa, onde elas conhecem cinco homens, seus futuros estupradores. “Me estuprem, a culpa é toda minha. Me desculpem me vestir assim. Me estuprem, eu quis sair sozinha. Me desculpem, estar falando em mim. Me escutem. Me desculpem, por favor. Me desculpem, seja lá pelo que for”, diz o trecho de uma das canções mais fortes da obra.

No segundo ato, o mesmo aplicativo recomenda a magia das doze flores amarelas para a vingança. Entre as várias mudanças de cenário, destaque para a representação de templo religioso, com direito a Branco Mello cantando O bom pastor com vestes religiosas. “Desde muito novo descobri minha vocação. Conquistar o povo e ganhar o mundo então. Sei que todo corpo sempre cai em tentação. Pro bem de todos, tenho a melhor solução. Misturei magia e ilusão, com meias verdades e religião. Misturei a vida e a paixão. E o milagre da multiplicação”, rege a música.

No terceiro ato, a morte do abusador se faz presente. “Antes do sol nascer, você vai encontrar a morte”, diz um trecho da canção homônima da ópera. O palco se transforma em diversos ambientes. De metrópole, de boate, de cemitério. As atuações das Marias A, B e C são instigantes. As dos titãs, um pouco mais discretas. “Encaramos um personagem ou outro, mas somos mais narradores”, explica Britto.

Se Nheengatu foi considerado uma volta às origens da banda, já com temas mais espinhosos e o pé no punk das antigas, Doze flores amarelas, primeiro trabalho sem o cantor Paulo Miklos, é encarado como um recomeço. Os “cabeças dinossauros” do rock mergulham no universo juvenil e exploram algo novo. O repórter que vos escreve acompanhou a gravação do DVD e é suspeito para falar, por ser fã do grupo há uma longa data. Cabe a você, leitor, ouvir e, principalmente, ver com os próprios olhos.

ENTREVISTA - Sérgio Britto (cantor, compositor e multi-instrumentista)

Como surgiu a ideia do projeto?
Estávamos discutindo qual seria o próximo trabalho e, pela vontade de não se repetir, decidimos por algo nunca feito antes. A ideia de ópera entusiasmou todos logo de cara. Juntamos o escritor Marcelo Rubens Paixa e o diretor Hugo Possolo para bolar a trama básica e inserir assuntos que nos tocam e do mundo onde vivemos. Foi um projeto ambicioso, desafiador e longo, de dois anos e meio.

E quanto à escolha do tema?
A história central é baseada no machismo, na violência sexual. Temas que, como muitos outros, fazem parte das nossas vidas. Mas a ópera também aborda outros assuntos, como as drogas, as relações conflituosas de pais e filhos e o lado tóxico da tecnologia.

Para a banda, é um recomeço?
Pode se dizer que sim. Por ser o primeiro sem o Paulo (Miklos, ex-integrante), por ser algo muito diferente da carreira inteira.

Como é a relação dos Titãs com Pernambuco?
A ligação é muito forte. Temos um público grande, que acompanha tudo. O show do Marco Zero (no ano passado) foi um dos mais especiais. Sem falar da influência do estado e da música nordestina no Õ blésq blom, que teve a participação de Mauro e Quitéria (dupla de repentistas famosa na praia de Boa Viagem nos anos 1980). Particularmente, é um dos discos que mais gosto.