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Livro investiga relação entre depressão e genialidade de Beethoven

Pesquisador destrincha os anos mais difíceis da vida do compositor, quando suas obras primas foram produzidas

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Na fase mais conturbada da vida de Beethoven, nasceram suas maiores obras. Foto: Fine Art Images/Divulgação

Um longo e penoso processo depressivo teria sido a gênese das obras mais complexas do compositor alemão Ludwig van Beethoven, segundo ensaios do pesquisador paulistano Carlos Siffert, recém-publicados em formato de livro.

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Beethoven: através de um prisma e outros ensaios (Dash Editora, R$ 39) se dedica a comentar as peças escritas nos últimos anos de vida de Beethoven, revelando as motivações e o contexto histórico - e íntimo - por trás delas. “Beethoven passou por uma crise com períodos de profunda depressão, chegando a considerar o suicídio. Recuperou-se, e daí surgiram suas grandes obras do último estilo”, explica Siffert, engenheiro de formação, dedicado ao estudo da música clássica e seus expoentes.

“O que mais surpreende é a descontinuidade entre a segunda e a terceira fases da obra de Beethoven, a terceira compreendendo os últimos dez anos da vida dele. Me perguntei: o que teria causado essa profunda transformação?”, lembra o autor, que partiu do questionamento para pesquisar o que ele chama de “mergulho no abismo” vivido pelo compositor alemão.

Na segunda fase, no início do século 19, o alemão já era reconhecido como um dos maiores compositores de seu tempo: chegou a inserir vozes humanas numa sinfonia, algo jamais feito até então. Na terceira fase, Siffert conclui, Beethoven usa a própria dor (motivada, sobretudo, pelos problemas auditivos) e carga dramática para atingir um nível impressionante de complexidade musical. É quando produz as maiores obras: as três últimas sonatas para piano, as Variações Diabelli, as Bagatelas, os cinco últimos quartetos, a Missa Solene e a Nona sinfonia.

Fora da música erudita, o pesquisador compara o processo ao vivenciado por Goya e Van Gogh no fim da vida, também atormentados por forte carga emocional. “Mas a música é, das artes, a que melhor expressa as emoções”, avalia o escritor, considerando mais contundente o drama atrelado às sinfonias de Beethoven. “Das trevas para a luz, do conflito à vitória. Para mim, isso descreve vida e obra dele”, sintetiza Siffert. Ele conduziu, durante dez anos, programas na Rádio Cultura de São Paulo voltados à música erudita, como As cantatas de Bach, Mozart 250 e Beethoven hoje.

Para justificar outro elemento fundamental da música do compositor alemão, a atemporalidade, Siffert lança mão de ensaios de pesquisadores da música e da comunicação. Cita Adorno, para quem a preocupação com a arte em si, em vez da incorporação dos problemas da sociedade de sua época, foi a grande maestria de Beethoven. Isso explicaria a popularidade perene das sinfonias do compositor alemão, em contraponto à popularidade flutuante de outros gêneros musicais. “Suas obras são mais e mais meditativas, espirituais, transcendentes. Sua linguagem se torna mais abstrata e mais concentrada. Faz uso das convenções clássicas, mas as altera”, escreve Siffert sobre os últimos anos do compositor, morto em 1827.

SERVIÇO
Beethoven: através de um prisma e outros ensaios
Dash Editora,163 páginas
R$ 39

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