{{channel}}
Restauro e conservação de obras antigas traz a história de volta
Instituto Cultural Benfica, da UFPE, e Fundação Joaquim Nabuco são exemplos de instituições que investem na recuperação de trabalhos artísticos
Paciência e muita técnica são qualidades fundamentais para trazer obras de arte castigadas pelo tempo e pela má conservação de seus donos à melhor forma possível. O restauro e conservação de livros, quadros, esculturas, porcelana e outros trabalhos artísticos dependem de um olho clínico e um intenso estudo interdisciplinar por parte de quem se dispõe a abraçar o ofício de restaurador. Em Pernambuco e, principalmente no Recife, a atividade tem uma procura permanente pela importância dessas localidades na história da arte e do patrimônio brasileiros.
Um exemplo de trabalho voltado para o reparo dessas obras está acontecendo no Centro Cultural Benfica, localizado em um casarão na Madalena que pertence à Universidade Federal de Pernambuco. A instituição tem sob sua guarda o acervo da antiga Escola de Belas Artes de Pernambuco, fundada em 1932 e que teve entre seus alunos os hoje famosos Gilvan Samico (1928-2013) e Tereza Costa Rêgo.
A escola, que se tornou o embrião do curso de artes visuais da UFPE, conta, atualmente, com um acervo de 61 obras, algumas em estado regular e outras em mau estado de conservação. Sete delas foram escolhidas, em um primeiro momento, para serem repaginadas, dos artistas Eliseu e Ivone Visconti, Reynaldo Fonseca, Daura Melo, Francisco Brennand, Mário Nunes e Augusto Bracet. Em uma ação rara em um trabalho que exige tanta concentração, o restauro dessas obras está aberto ao público até o fim de fevereiro, sempre no período da tarde. Uma exposição com mais sete obras, todas de professores e alunos da antiga escola, deve acontecer em março do ano que vem.
A artista visual e restauradora Nilse Fontes foi chamada pela universidade junto com a filha, Nathalie Fontes, para deixar as telas o mais próximo possível do estado em que estavam quando foram criadas. Formada na primeira turma oficial do curso de artes visuais da UFPE, criado em 1965, ela tem, agora, a oportunidade de restaurar o quadro Retrato n°1, pintado em 1952 por Reynaldo Fonseca, um de seus professores. “É como se fosse o diagnóstico de uma pessoa. Quando o restaurador começa seu trabalho, ele faz uma análise dos danos causados e avalia os elementos necessários para a obra manter sua originalidade. Às vezes é preciso usar uma luz especial, fazer testes químicos. Restaurar um quadro de um ex-professor querido como Reynaldo é um orgulho para mim”.
Para um acervo maior, como o da Fundação Joaquim Nabuco, a mobilização de recursos é ainda mais intensa. O Laboratório de Pesquisa, Conservação e Restauração de Documentos e Obras de Arte (Laborarte) é encarregado de cuidar de todo o acervo da Fundaj que precisa de reparos, entre livros, pinturas, gravuras, peças em porcelana e esculturas, e ainda atende outras instituições públicas, como museus, bibliotecas e arquivos públicos. A instituição tem dois laboratórios: um voltado para obras em papel e outro para pinturas de cavalete, esculturas policromadas, cerâmicas e azulejos. A restauração do Mosteiro de São Bento, em Olinda e o mural da Batalha dos Guararapes, localizado na Rua das Flores, no Centro do Recife, foram alguns dos projetos nos quais o setor já colaborou.
A coordenadora do Laborarte, Ana Elizabete Marques, detalha mais as funções dos profissionais ligados à restauração e conservação de bens culturais. “A restauração tem que ser reversível, pois trabalhamos com acervos históricos. Temos de respeitar o que o autor da obra quis passar. O restaurador não é o criador, mas o reparador. É preciso ter sensibilidade e limites, e também é preciso muita ciência e pesquisa”.
Para restaurar material em papel, é preciso identificar quais são os problemas a resolver, sejam eles rasgos, mofo ou outros agentes e fazer uma higienização e desinfestação antes de acondicionar em locais adequados. Mesmo a gramatura do papel e a acidez ou alcalinidade do papel contam para a sua longevidade. Até o encadernamento precisa ter uma atenção especial. “É preciso tomar vários cuidados. Não paramos para tomar água ou para comer antes de intervalos regulares, como o de almoço, para evitar qualquer risco de contaminação ou mudança em nosso corpo que prejudique nosso trabalho. Além disso, todas as técnicas de encadernação utilizadas são artesanais. É preciso conhecer materiais da época de cada publicação”, aponta o técnico de restauração Givaldo Batista.
A complexidade dessas etapas se misturam com as mais variadas dúvidas de ordem histórica ou estética. A restauradora Cecília Sátiro, do Laborarte, ilustra quais complicações podem haver em uma obra de restauro. “Estou trabalhando em uma tela de um pintor chamado Piereck, de 1886. Ela havia sido dobrada na parte inferior e parte da pintura nessa região havia sido perdida. Não sabíamos o que havia, discutimos muito o que fazer e procuramos reconstituir a partir de imagens que pesquisamos. É nesta fase em que estou”.
FATORES QUE DEGRADAM OBRAS DE ARTE
Sol, luz, intempéries e agressões mecânicas como sujeiras em geral
%2bPAPEL
Dependendo do estado do papel encontrado pelos restauradores, é preciso fazer uma velatura, ou seja, colocar uma nova camada de papel para dar um novo suporte a esse material antigo. É como se fosse preciso colocar uma tela nova por trás de uma tela antiga, como acontece com a restauração em pintura. Outra técnica é a obturação, ou seja, colocar um nova camada de papel onde antes havia buracos. Isso pode ser feito por meio de uma máquina, na qual se molham as folhas a serem restauradas e se adiciona mais polpa diluída de papel. O equipamento se encarrega de sugar a umidade e, com isso, as falhas são preenchidas.
%2bTELAS
Já no setor de telas, por exemplo, é preciso seguir várias outras etapas a partir do diagnóstico dos problemas a serem resolvidos: higienização, fixação da camada de pintura, se houver algum descolamento, limpeza mecânica ou química, preenchimento de lacunas, nivelamento do quadro com uma massa especial, uniformização da cor e aplicação de verniz.
%2bLABORARTE
O Laborarte abre inscrições periodicamente para cursos de curta duração voltados para estudantes e pesquisadores nas áreas de história, biblioteconomia e arquivologia. Embora não abra suas atividades para o público em geral, nessas oportunidades os alunos dos cursos podem conhecer um pouco do laboratório e da rotina do setor.