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Filme sobre a sexualidade de padres e pastores abre o festival Recifest nesta terça

Festival de Cinema da Diversidade Sexual e de Gênero apresenta curtas e longas-metragens como Divinas Divas, dirigido por Leandra Leal

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Imagens do documentário Amores Santos foram captadas pela internet. Foto: Dener Giovanini/ Divulgação
 
Arcebispos, pastores, padres e bispos são flagrados durante atos sexuais no filme Amores santos, que será exibido no Recife pela primeira vez nesta terça, às 19h30, no Cinema São Luiz na abertura do festival Recifest. O documentário foi totalmente filmado por meio de webcams. Pela internet, sem revelar as identidades, o documentarista Dener Giovanini e o ator Darico Macedo conseguiram imagens de sexo e masturbação enviadas por sacerdotes cristãos de países como EUA, Holanda, Espanha, França, Bélgica, Inglaterra, Costa Rica, México, Alemanha, Filipinas, Itália e Vaticano. Uma das intenções é denunciar a hipocrisia existente por trás de discursos de ódio homofóbicos, que escondem práticas de pedofilia e levam vítimas à morte (por assassinato ou suicídio), tema também recentemente abordado, por exemplo, no vencedor do Oscar Spotlight. Além dos flagrantes, o longa-metragem apresenta entrevistas, que indicam que 50% dos clérigos católicos são homossexuais.

Um curta-metragem que venceu o Festival de Gramado (Rosinha) e um longa-metragem que foi um dos mais premiados do Festival do Rio (Divinas divas) também estão na programação deste ano do Recifest: Festival de Cinema da Diversidade e de Gênero, que segue até sábado no São Luiz. A consagração desses filmes demonstra que as questões de afirmação da sexualidade estão cada vez menos restritas a círculos temáticos e já alcançam protagonismo nos principais eventos cinematográficos brasileiros, não só nos circuitos mais retristos.

Ao longo das cinco noites, o Recifest exibirá 27 filmes, além de abrigar performances, fragmentos de peças de teatro, espetáculos de dança, debates e lançamentos de livros. O longa-metragem Divinas divas, de Leandra Leal, é apresentado no encerramento. Os 25 curtas são distribuídos nas mostras Competitiva Nacional, Competitiva Pernambucana e Seleção Internacional.

No documentário Divinas divas, a atriz Leandra Leal homenageia Rogéria, Jane Di Castro, Divina Valéria, Camille K, Eloína dos Leopardos, Fujika de Halliday, Marquesa e Brigitte de Búzios, artistas travestis que celebram 50 anos de carreira em um espetáculo cujos bastidores são retratados pelo filme. A diretora aproxima-se das personagens com intimidade, pois conviveu com elas desde a infância por ser da família dos responsáveis pelo Teatro Rival, que sempre as abrigou, onde ocorre a apresentação comemorativa. No Festival do Rio, o longa ganhou os troféus de melhor documentário pelo júri popular e pelo júri do Prêmio Félix (dedicado à temática LGBT).

A competição de curtas pernambucanos inclui filmes como o inédito faroeste feminino Irma, patrocinado com doações feitas pela internet (crowdfunding), e o documentário Faz que vai, protagonizado por dançarinos que misturam frevo com estilos de dança pop contemporâneos. Há também Angu.doc, que revela os bastidores do Coletivo Angu de Teatro, e Nena Cajuína, sobre a polêmica homenagem cedida pela Câmara de Vereadores de Arcoverde a uma ex-prostituta.


Da mostra nacional, o curta mais premiado, inédito no Recife, é o brasiliense Rosinha, sobre um trio de amantes idosos (dois homens e uma mulher) em uma vila no interior. No Festival de Gramado, ele ganhou quatro troféus, incluindo o Kikito de Melhor Filme e um prêmio especial para a atriz Maria Alice Vergueiro.

Pelo conteúdo dos filmes reunidos, o Recifest toca em assuntos urgentes que têm sido bastante discutidos no Brasil e no mundo. Para aprofundar a abordagem de questões delicadas, o festival também incorpora na programação a presença de participantes especiais que não necessariamente estão diretamente ligados ao meio artístico, mas possuem uma importante atuação política. Esses convidados, que apresentarão as sessões, são Fabiana Melo Oliveira (assessora parlamentar e militante da Articulação e Movimento para Travestis e Transexuais de Pernambuco), Robeyoncé Lima (primeira mulher trans aprovada no exame da OAB-PE), Maria Clara de Sena (vencedora do Prêmio Claudia na categoria Políticas Públicas) e Maria Daniela Mendonça Silveira (mulher transexual, lésbica, engenheira agrônoma, funcionária pública).

O Recifest fará também duas homenagens póstumas este ano. Uma delas é para o crítico de cinema Christian Petermann, que foi jurado do festival no ano passado e faleceu em maio. A outra é para a atriz cubana Phedra D. Córdoba (1938-2016), transexual cubana que se tornou ícone do teatro brasileiro e recentemente participou da companhia Os Satyros, além de ter sido tema de um documentário lançado em 2015. A curadoria da programação é assinada por Alexandre Figueiroa (crítico, pesquisador e documentarista), Clara Angélica (cineasta) e Alexander Mello (diretor do Rio Festival de Gênero & Sexualidade).

PROGRAMAÇÃO:

TERÇA
18h - Lançamento do livro: Homoafetividade e as religiões: Educando pela Diversidade, de Jorge Arruda
19h - Lavagem da calçada do São Luiz
19h30 - Abertura: Teatro: Fragmento do espetáculo Ossos, de Marcelino Freire, pelo Angu de Teatro %2b Longa: Amores Santos, de Dener Giovani

QUARTA
18h- Lançamento do livro: Cinema Noir: A Sombra como experiência estética e narrativa, de Bertrand Lira
19h30 - Abertura Música: Espetáculo #acordefrida: sapatômico, de Madalena Rodrigues e Juliana Pires Mostras curtas internacionais e Div.A

QUINTA
19H30 - Abertura: Dança - espetáculo ämämä mämäm, de André Aguiar Mostra competitiva pernambucana

SEXTA
19H30 - Abertura: Representatividade - Vídeo sobre Sr. Avelino Fortuna, do Mães pela Diversidade Mostra competitiva nacional

SÁBADO

19h30 - Abertura: Audiovisual - Projeto Margem, de Gui Nonato Divinas Divas, de Leandra Leal


CURTAS DAS MOSTRAS:

Seleção de curtas internacionais Div.A (animações)
- A Night in Tokoriki, de Roxana Stroe (Romênia)
- The Wayward Carnality, de Joanna Maria Wókcik (Polônia)
- Lucid Noon, Sunset Blush, de Alia Logout (EUA)
- Elise, de Evan Sterrett e Jo Bradlee (EUA)
- Máscaras, de David San Juan (Bélgica)
- Float, de Sam Berliner (EUA)
- All Their Shades, de Chloé Allienz (Bélgica)

Mostra competitiva pernambucana
- Quarto para alugar, de Enock Carvalho e Matheus Farias
- Faz que vai, de Bárbara Wagner e Benjamim de Burca
- Um brinde, de João Vigo
- Angu.doc, de André Brasileiro e Vinícius Vieira
- Irma - Era uma vez no sertão, de Camilla Lapa e Lorena Arouche
- Nena cajuína, de Almir Guilhermino
- Milagres, de Adalberto Oliveira
- Transexualidade masculina, de Lucio Souza, Emannuel Nascimento, Bianca Pereira e Giselle Cahú.

Mostra competitiva nacional
- Canto da sombra, de Thiago Kistenmacker (RJ)
- Ingrid, de Maick Hannder (RJ)
- O chá do general, de Bob Yang (SP)
- Rosinha, de Gui Campos (DF)
- Se o mundo acabar, me dê um toque, de Renato Sircilli (SP/Bélgica)
- Horizonte de eventos, de Gil Baroni (PR)
- Lovedoll, de Debora Zanatta e Estevan de La Fuente (PR)
- Onde é aqui, de Mateus Capelo (SP)
- Aquela estrada, de Rafael Ramos (AM)
- Antes da encanteria, de Elena Meirelles, Gabriela Pessoa, Jorge Polo, Lívia de Paiva e Paulo Victor Soares (CE).