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Colega de classe de Anne Frank lança livro sobre holocausto nazista
Judia relata história de sobrevivência e conta sobre a relação com Frank

Algumas histórias nunca serão esquecidas, não apenas pela impossibilidade de serem apagadas da memória, mas também pela importância da preservação de determinadas lembranças, sejam boas ou ruins. O holocausto judeu provocado pelo nazismo é um desses exemplos: quem sobreviveu a ele jamais esqueceu. É o caso da judia Nanette Konig, 87, que decidiu reavivar acontecimentos de mais de sete décadas atrás e organizá-los no recém-publicado livro Eu sobrevivi ao holocausto (Universo dos Livros, 192 páginas, R$ 39,90), lançado neste mês no Recife. Ela é ex-colega de Anne Frank, adolescente vítima do genocídio judeu cuja vivência retratada em um diário se tornou a memória dolorosa de um regime de barbárie.
“Escrevo para que o holocausto não seja esquecido”, afirma Nanette. “Muitos sobreviventes preferem não falar, para evitar reviver os traumas. Mas é inevitável que as imagens voltem a qualquer momento. Em nome dos que morreram, é preciso lembrar sempre o que existiu”, diz, a respeito do sofrimento encarado durante a ascensão do nazismo na Europa, que não se restringiu à Alemanha. “Pensam que a Holanda era um paraíso, mas 80% da comunidade judaica de lá foi dizimada”, ressalta a autora sobre o país de origem. Foi lá que viu praticamente todos amigos e familiares serem mortos, direta ou indiretamente, pelo regime de Adolf Hitler. Os primeiros impactos foram sentidos por ela a partir de maio de 1940, quando a Holanda foi ocupada pelo exército alemão e iniciou a perseguição aos judeus do país.
Uma das medidas tomadas à época foi obrigar crianças judias a estudarem em instituições de ensino separadas do restante da população. “Em 1941, os alunos judeus não podiam estudar em escolas públicas holandesas”, explica Nanette, relembrando o remanejamento para o Liceu Judaico. “Por acaso, fiquei na mesma classe de Anne Frank”, destaca. Ela se recorda da colega de turma com carinho: “Foi uma pessoa especial, com muita vontade de viver”. Tinham a mesma idade, ambas nascidas em 1929, com menos de dois meses de diferença. As duas viraram amigas e trocavam confidências, mas o período de convivência escolar não foi tão longo, já que, em julho de 1942, Anne e a família se mudaram para um esconderijo, o anexo secreto relatado em O diário de Anne Frank.
A sobrevivente ficou sem notícias da amiga até 1944. Nesse ano, o esconderijo dos Frank foi descoberto e a família deslocada para Auschwitz. Após a traumática passagem pelo mais conhecido campo de concentração da Polônia, Anne foi transferida para outro campo, Bergen-Belsen, na Baixa Saxônia, onde também estava Nanette.
“Lembro dela muito magra, abatida. Ela não tinha condições de sobreviver, estava esquelética”, recorda, sobre quando viu, de longe, Anne Frank em Bergen-Belsen. As duas estava em áreas distintas, separadas por uma cerca de arame farpado e só puderam conversar quando a divisão foi eliminada, poucos meses antes de a garota morrer. As duas tinham, então, 15 anos de idade.
Anne teve a oportunidade de falar para Nanette sobre o período no esconderijo, os horrores de Auschwitz e o desejo de ter o diário transformado em livro após a guerra. O encontro foi pouco tempo antes de ela ser encaminhada para a ala dos doentes e falecer. Uma das várias perdas com que Nanette teve que lidar, já que quase toda a família dela morreu no período. “Sobreviveram apenas duas primas”, acrescenta. “Não era um campo de extermínio como Auschwitz, mas passamos muita fome e maus-tratos”, recorda Nanette, que enfrentou desnutrição severa e teve tifo, causa da morte de Anne Frank. Após o fim da guerra, passou quase três anos internada se recuperando da doença. Depois disso, mudou-se para a Inglaterra, onde conheceu o marido, um húngaro chamado John Konig, que tinha familiares morando no Brasil. Os dois se casaram em 1953 e, alguns anos depois, se mudaram para o país. Vivem juntos até hoje, em São Paulo.