Morre o marchand, pintor e desenhista italiano Giuseppe Baccaro
Sepultamento está marcado às 16h, no Cemitério de Guadalupe, em Olinda

Morreu na noite deste sábado, aos 86 anos, o marchand, galerista, colecionador, pintor e desenhista italiano Giuseppe Baccaro. Ele estava internado há quatro meses no Hospital Esperança, no Recife, com problemas cardíacos e faleceu por volta das 18h30, após uma parada cardíaca. O corpo está sendo velado em uma funerária no bairro de Santo Amaro, no Recife. O sepultamento está marcado para às 16h, no Cemitério de Guadalupe, em Olinda, atendendo a pedido do próprio Baccaro.
Raul Córdula, pintor, desenhista, artista gráfico, empresário, cenógrafo, professor universitário, crítico de arte e escritor, falou sobre a perda: "Sinto muitíssimo e de duas maneiras. Como amigo é terrível perder um amigo como ele e também como uma pessoa que se interessou pela pequena-grande arte de Olinda. Perdemos uma grande pessoa e um incentivador até quando teve saúde. Grande colecionador que dedicou a segunda metade da sua vida à pobreza, criou a Casa da Criança de Olinda. Era muito bem relacionado com todos os artistas, com todas as pessoas,. Era um artista, um pintor de paisagem maravihoso, que fundou a Oinda dos artisas que se vai como foram Samico e Maria Carmem. Uma grande perda, tanto como amizade quanto pela figura pública e para a cidade de Olinda".
Pioneiro ao criar um mercado voltado para a arte popular, era considerado um dos maiores expoentes das artes plásticas no Brasil. Segundo Roberto Rugiero, marchand de arte popular, Baccaro era "(...) uma das pessoas mais cultas e mais bem informadas sobre arte". Ainda de acordo com Rugiero, ele foi um dos últimos a tratar a arte popular em pé de igualdade com a arte moderna e recolocou em circulação muitos artistas modernos.
Nascido em Roccamandolfi, na Itália, em 1930, Giuseppe Baccaro chegou ao Brasil em 1956. Por volta de 1970, mudou-se para Olinda, dizendo estar cansado de vender obras caras para colecionadores ricos. "Não é possível que 90% dos acervos no Brasil estejam em mãos de colecionadores particulares enquanto os museus estão à míngua", disse na época.
No Sítio Histórico, fundou a Casa das Crianças de Olinda, instituição para crianças carentes. Em 1999, duzentas crianças eram beneficiadas. Em 2001, cerca de 21 mil crianças haviam recebido apoio da instituição. Para financiar a construção da sede da instituição, Baccaro se desfaz de uma parte de seu acervo. O terreno foi comprado com a renda obtida pela venda de 120 quadros de Ismael Nery. A edificação é uma réplica de uma vila italiana. As casas abrigavam oficina, sala de aula e posto de saúde. Há também um anfiteatro em estilo romano para 1.200 pessoas e uma hospedaria para artistas populares. Além disso, Baccaro manteve uma biblioteca de 30 mil volumes, além de pinturas, gravuras, mapas, cartas e autógrafos.
Em Olinda, ele continuou a atividade artística. Em 1986, expôs pinturas no Masp. E, no final dos anos 1980, integrou o Atelier Coletivo, com Gilvan Samico (1928), Luciano Pinheiro (1946), Eduardo Corrêa de Araújo (1947), Guita Charifker (1936), José Cláudio da Silva (1932) e José de Barros (1943). Na primeira mostra do ateliê, a venda das obras foi destinada à Casa das Crianças de Olinda e ao Movimento dos Meninos e Meninas de Rua de Pernambuco.
Atualmente, a coleção fica nos três sobrados conjugados da rua São Bento, em Olinda, onde Baccaro morava. Há manuscritos originais dos escritores Cecília Meirelles, Olavo Bilac e Coelho Neto. Primeiras edições dos autores franceses Marcel Proust e Victor Hugo, e dos brasileiros Euclides da Cunha e Mário de Andrade, bem como uma edição dos Sermões de Padre Vieira, de 1679. Possui também litografias de Alfred Sisley (1839-1899), gravuras de Dürer (1471-1528) e Di Cavalcanti (1897-1976) e uma água forte do Abaporu, de Tarsila do Amaral.