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Lançamentos revisitam obra de Augusto dos Anjos: genialidade ou loucura?
Psiquiatra pernambucano Luiz Carlos Albuquerque acrescenta ensaio sobre genialidade e loucura na segunda edição de Eu, Singularíssima Pessoa, enquanto poemas ganham nova coletânea

No início do século 20, trajando roupas escuras, Augusto dos Anjos era figura longilínea, de peito oco, cujos braços sacolejavam como ossos soltos sob o terno, a percorrer os arredores da Faculdade de Direito do Recife. A descrição, garimpada pelo psiquiatra e escritor Luiz Carlos Albuquerque no início dos anos 1990, é fruto das memórias de intelectuais pernambucanos e paraibanos que conviveram com o poeta. Remete à cena descrita nos versos: “Recife. Ponte Buarque de Macedo. Eu, indo em direção à casa do Agra, assombrado com a minha sombra magra, pensava no Destino, e tinha medo.” Revela contornos do simbolista, resgatado pela segunda edição de Eu, singularíssima pessoa (Bargaço, R$ 40) lançada neste mês por Albuquerque, e pelo relançamento de Toda poesia de Augusto dos Anjos (José Olympio, R$ 54,90).
“Considero Augusto o poeta mais lido do Brasil. Embora tenhamos nomes como Olavo Bilac e Fagundes Varela, Augusto dos Anjos é reconhecido até por quem não acompanha a poesia brasileira. Ele lançou um único livro, Eu, em 1912, mas segue nas prateleiras. Se não para de ser encartado, significa que não param de procurá-lo. Pode não ser autor das poesias mais bonitas, as que oferecemos à namorada, mas é o mais lido”, opina Albuquerque. Sócio da União Brasileira de Escritores e da Associação Brasileira de Psiquiatria, o médico pernambucano decidiu revisitar as investigações publicadas em 1993 a fim de acrescentar à obra original comentários e ensaio sobre a relação entre genialidade e loucura, atribuída ao poeta e a inúmeros outros grandes artistas.
Em relação à técnica do escritor, Albuquerque considera as métricas primorosas, motivo pelo qual encoraja o uso educativo de obras como de Toda poesia de Augusto dos Anjos. Nesta, análise crítica de Ferreira Gullar, escrita em 1970, acompanha a nova edição, contribuindo para elucidar o legado do simbolista nordestino: “Augusto dos Anjos é um poeta do Engenho do Pau d’Arco, da Paraíba, do Recife, do Nordeste brasileiro, do começo deste século [20]. Essa não é uma referência meramente biográfica, externa à sua obra. Não: sua condição de homem, concreta, histórica, determinada, informa os poemas que escreveu, e não apenas como causa deles, em última instância: é matéria deles. Com Augusto dos Anjos penetramos aquele terreno em que a poesia é um compromisso total com a existência.”