Falta força e poesia em "Livre", protagonizado por Reese Witherspoon
Longa que rendeu indicação da atriz ao Oscar tenta repetir feito de "Na natureza selvagem", mas falha

Filmes de caminhadas transformadoras já existem muitos. Para citar exemplo recente e consagrado, o belo 'Na natureza selvagem' (2007), dirigido por Sean Penn. 'Livre', protagonizado por Reese Witherspoon, grosso modo, é a versão feminina do primeiro com final feliz. O longa também é baseado em um livro, no caso 'Livre – a jornada de uma mulher em busca do recomeço', de Cheryl Strayed, mas a sua realização cinematográfica não tem a mesma força e nem a poesia. Tanto da literatura quanto de outros exemplares audiovisuais do mesmo gênero.
A obra foi lançada em 2012 e detalha a aventura da garota americana que abandona uma vida de drogas, sexo e promiscuidade em busca de autoconhecimento. Em versão impressa, a história foi traduzida para mais de 30 países, ficou meses nas listas dos livros mais vendidos. É a história da mulher que sem qualquer experiência esportiva decide percorrer solitariamente a temida Pacific Crest Trail, ou seja, toda a costa Oeste norte-americana. Da fronteira com o México até a fronteira com o Canadá são 4.200 quilômetros.
No trajeto, nós, espectadores, somos feitos cúmplices daquela aventura. Testemunhamos a pouca prática para esquentar a comida, as dificuldades para enfrentar variações climáticas, o desgaste físico e, claro, tudo o que ela pensa sobre a vida, sobre os erros cometidos no passado. O que levou aquela mulher a se propor aquilo e mesmo que tipo de transformação pretende com o sacrifício são informações repassadas a conta-gotas.
Somente à medida que ela avança na trilha e aprende a lidar com as dificuldades práticas é que as camadas emocionais vão ganhando destaque. Artifício para segurar o espectador em um longa em que a ação se resume a caminhar, caminhar, caminhar e caminhar. Os encontros com outros personagens são esporádicos e superficiais.
Reese Witherspoon não é apenas a protagonista Cheryl Strayed como produtora do longa. Assim, procurou se cercar de profissionais confiáveis. Entregou a direção a Jean-Marc Vallée ('Clube de Compras Dallas') e o roteiro a Nick Hornby ('Alta fidelidade'). Mesmo que tenha narrativa fragmentada e isso ajude a prender a atenção, ótima trilha sonora, paisagens naturais de tirar o fôlego, 'Livre' é apenas um filme de personagem. A protagonista está indicada ao Oscar de melhor atriz e, além dela, Laura Dern como atriz coadjuvante. Reese também concorre a outros prêmios importantes da temporada, entre eles Bafta e o Screen Actors Guild Awards, entregue pelo sindicato da categoria.