Candidato ao Oscar, polonês "Ida" é silencioso e perturbador
Longa de Pawel Pawlikowski, indicado à estatueta nas categorias filme estrangeiro e fotografia, foi gravado em preto e branco e formato dos anos 1950. Obra em cartaz no Bela Artes exige imaginação do espectador

A candidatura ao Oscar de filme estrangeiro era garantida. A de melhor fotografia deu ao polonês 'Ida' maior (e merecida) visibilidade. Em cartaz no Cine Belas Artes, o longa conta uma história que se passa em poucas semanas. Mas são três os tempos em foco no perturbador filme de Pawel Pawlikowski. Há o tempo passado, que remonta ao domínio nazista sobre o território polonês; há o tempo presente, da Polônia comunista do pós-guerra; e há ainda um tempo anacrônico. E é na atemporalidade que se situa a protagonista do filme, Anna.
Abandonada pela família muito pequena, foi criada num convento no interior de seu país. Prestes a fazer seus votos e se tornar freira, renunciando a tudo que nunca conheceu, a noviça é obrigada por uma superiora a deixar o convento e conhecer sua única parente viva. Com sua tia Wanda, um antônimo da delicadeza e discrição que caracterizam Anna, a garota descobre um passado inimaginável. Quando fecha as portas do passado, acaba também descobrindo a si própria.
Para filmar uma história simples apenas na superfície, Pawlikowski voltou à Polônia natal. Nascido em Varsóvia, o cineasta deixou o país na adolescência, radicando-se na Inglaterra. São daquele país suas incursões anteriores no cinema – primeiramente no documentário, quando trabalhou para a BBC, e, num momento posterior, na ficção. Distribuído no Brasil pela mineira Zeta Filmes, 'Ida' é seu quinto filme do formato – os mais conhecidos, até então, são 'Last resort' (2000) e 'Meu amor de verão' (2004), ambos premiados no Bafta.
'Ida' é um grande exercício cinematográfico. Pawlikowski filmou em preto e branco e num formato hoje pouco usual: 4:3, também chamado de janela clássica (tela quadrada), que dominou o cinema até os anos 1950. Com enquadramentos nada ortodoxos, o diretor revela, a cada novo quadro, uma maneira diferente de se fazer e assistir (para o espectador) cinema. O preto e branco de Pawlikowski também não é nada limitador. Com planos longos que desbravam a Polônia do interior, ele mostra diferentes matizes do preto, do branco e, principalmente, do cinza. E o que ele não mostra o espectador imagina. Sempre com os cabelos cobertos, Anna é dona de cabelos vermelhos como a mãe morta, Roza, sua tia Wanda descreve.
O diretor trabalhou com duas atrizes bem distintas. Para o papel de Anna, descobriu a estreante Agata Trzebuchowska, garota que nunca havia feito uma incursão como atriz. Já para a personagem Wanda escalou outra Agata, de sobrenome Kulesza, com larga experiência teatral. O contraste entre as duas atrizes acaba complementando o das próprias personagens. Anna, em sua descoberta do mundo, torna-se um pouco Wanda e vice-versa.
Assim como na forma, em sua própria narrativa Ida não entrega nada fácil. Os diálogos são muito mais feitos de silêncios do que palavras. Cenas determinantes para a história por vezes são apenas sugeridas. O ambiente do filme é a Polônia do início dos anos 1960 – um dos poucos elementos que colocam a história no espaço temporal é a música de John Coltrane, através do único personagem masculino de destaque, o saxofonista Lis (Dawid Ogrodnik). De uma maneira impecável e muito pessoal, Pawlikowski discute em Ida identidade, história e família. E mostra como o cinema é um mundo de possibilidades.
Assista ao trailer de 'Ida'