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Tubarões do Recife atacam na cultura pop e nas artes
Predadores são presença constante no imaginário da sociedade e fazem sucesso em filmes, músicas, camisetas, desenhos animados e histórias em quadrinhos, entre outras linguagens artísticas
Ele ainda não ganhou o título oficial de cidadão, mas sua presença no mar de Boa Viagem provocou uma verdadeira revolução no comportamento dos recifenses. O tubarão é um assunto que se renova na cultura pop e nas artes. No mundo inteiro, esses predadores das águas sempre exerceram um violento poder sobre o imaginário da sociedade. Eles estão presentes no universo das artes pelo menos desde o século 18 e ganharam força total na cultura pop principalmente depois de 1975 com o sucesso do filme de Steven Spielberg.
Na semana passada, o assunto voltou à mídia com a premiação do filme Tubarão, do cineasta Leo Tabosa, no festival Cine PE, onde ganhou o prêmio de melhor curta-metragem da mostra competitiva nacional. Outro exemplo recente foi visto na edição brasileira da revista em quadrinhos Wolverine, que apresenta Iara dos Santos, a primeira X-Men pernambucana. A história, lançada nos EUA em 2012, começa no Recife, onde a menina descobre ser uma mutante com super-poderes que a transformam em uma "Garota-Tubarão".
O misto entre fascínio e medo exercido pelos tubarões sobre os seres humanos é um fenômeno moderno, segundo o pesquisador inglês Luke White. Ele fez um levantamento sobre o tema (disponível no site da galeria Tate) inspirado pela exposição do polêmico artista Damien Hirst, que mostrou um tubarão em conserva em uma exposição que se tornou um ícone da arte contemporânea na década de 1990.
De acordo com White, os tubarões começaram a ter sua imagem associada ao perigo quando a humanidade reviu sua visão sobre as espantosas forças da natureza a partir das descobertas de cientistas como Copérnico, Descartes e Newton, quando os homens perceberam sua insignificância diante do universo. Desde então, novos significados e metáforas foram incorporados. No filme de Spielberg, por exemplo, esses peixes são inimigos do capitalismo ao ameaçarem o turismo em uma praia. Em obras mais recentes, como Do fundo do mar (1999) e Ataque dos tubarões (2008), eles são uma espécie de castigo contra ações humanas antiecológicas.
Como ficou claro com a X-Men, Recife tornou-se internacionalmente famosa por causa da quantidade de ataques. Artistas da própria cidade têm abordado as mandíbulas e barbatanas direta ou indiretamente, algumas vezes com ironia ou homenagens, em exemplos como filmes, festas e músicas. No mês de abril, o fenômeno chamou a atenção do cantor Axl Rose, que postou em seu Instagram uma foto das placas de advertência da praia de Boa Viagem.
NA MODA
Uma das estampas mais populares da marca Camisetas da Pleura, do designer pernambucano Keops Ferraz, é uma placa de prevenção contra ataques de tubarões. O visual é semelhante ao dos avisos de Boa Viagem, mas o peixe sorri e o texto é uma brincadeira em inglês, espanhol e italiano, que termina com a mensagem: "Pernambuco parlando al mondo".
NAS ARTES PLÁSTICAS
Tubarões surgem como ameaça aos navegantes em pinturas de séculos passados, de artistas como John Singleton Copley (Watson and the Shark, de 1778) e Winslow Homer (The gulf stream, de 1899). Na arte contemporânea, o trabalho mais icônico é The physical impossibility of death in the mind of someone living (A impossibilidade física da morte na mente de alguém que vive), de Damien Hirst, que apresentou um tubarão de verdade, morto, em conserva, dentro de um aquário. Há também a instalação Tubarões de seda, do brasileiro Miguel Rio Branco, em exposição permanente no Inhotim (Minas Gerais), onde as imagens do peixe ganham leveza. No Recife, o artista Aslan Cabral tem realizado na praia de Boa Viagem as festas Charquettack, em homenagem aos elasmobrânquios. Ele explica que "o tubarão simboliza essa apropriação do espaço, um contra-ataque aos absurdos praticados".
NA MÚSICA PERNAMBUCANA
As identificações culturais entre o rock e o surf tornaram inevitáveis as referências às barbatanas na música pernambucana. Grupos como The Playboys e Os Cachorros lançaram canções com refrões inspirados pelos ataques a surfistas. Houve até uma banda, surgida em 1998, chamada Shark Attack. Em 2013, o MC Jiraya lançou, na internet, o Rock da garota tubarão, em homenagem à personagem da Marvel ("Com vara de pescar não dá pra te pegar e toda rede que eu jogo você vai rasgar").
Ouça as músicas:
NO INSTAGRAM DOS GUNS'N'ROSES
Além de postar a foto das placas de advertência no Instagram, Axl Rose transformou-a em seu avatar e ainda postou um texto para tirar onda dos recifenses: “They got it all here… Sea sharks, land sharks N’ cock sharks… They are the best!!! Errr.. I mean the worst! Ha!”. A tradução seria mais ou menos assim: “Eles têm tudo isso aqui. Tubarões no mar, tubarões na terra e tubarões na cueca….eles são os melhores!!! Err…digo, os piores! ha!”.
NA INTERNET
Groove Shark é o nome de um dos mais famosos sites de compartilhamento de músicas na internet. No chat e nos campos de comentários do Facebook, o bicho ganhou um emoticon próprio, que pode ser gerado com a digitação de três acentos circunflexos entre parênteses: (^^^). Memes e vídeos no Youtube também costumam fazer sucesso com o animal, como em uma recente propaganda russa de absorventes ou nas imagens feitas pelas câmeras de segurança da Praia de Boa Viagem.
NO CINEMA PERNAMBUCANO
No filme O som ao redor, o personagem interpretado por WJ Solha demonstra ser um homem corajoso ao tomar banho de mar à noite em Boa Viagem. A placa de advertência existente nas praias está estampada como selo em um dos discos do DVD duplo do longa-metragem pernambucano. Em 2013, também foi lançado o premiado curta-metragem Tubarão, de Leo Tabosa, documentário sobre um norte-americano que perdeu o namorado surfista em um ataque ocorrido no Recife (apesar do título, esse não é o assunto principal do curta).
NOS FILMES
Barbatanas e mandíbulas são imagens de apelo inesgotável para a indústria do cinema em dezenas de filmes. É praticamente um subgênero do terror, que foi renovado e ridicularizado em 2013 com o telefilme Sharknado, sobre tubarões que voam pelos ares graças a um tornado. Eles aparecem até em filmes de mortos-vivos (no italiano Zombie, de 1979) e do agente James Bond (007 O espião que me amava, de 1977). Em 2012, o clássico de Steven Spielberg ressurgiu com tudo no Recife com uma sessão lotada no São Luiz durante o festival Janela Internacional, com direito a protesto de surfistas e ecologistas na calçada.
NAS ANIMAÇÕES INFANTIS
Clássico dos estúdios Hanna-Barbera criado em 1976, o desenho animado do Tutubarão divertiu gerações de crianças. Nem sempre malvado, o peixe ganhou novas versões infantis no cinema de animação com os filmes Procurando Nemo (2003) e O espanta tubarões (2004), com personagens dublados por atores como Robert De Niro e Jack Black.
NOS QUADRINHOS
30 anos antes da Garota-Tubarão e do Sharknado, o músico Arrigo Barnabé e o desenhista Luiz Gê lançaram o projeto Tubarões voadores (1984), que envolvia um disco, uma história em quadrinhos e um espetáculo musical. Trecho: "Feche a janela, Joãozinho. Ou seremos comidos pelos tubarões voadores!" Nas aventuras do herói-jornalista Tintin, eles aparecem nos livros Os tubarões do Mar Vermelho e O Lago dos Tubarões (onde ele pilota um submarino em forma de tubarão). A Garota-Tubarão da HQ da Marvel, na versão em português, fala expressões nordestinas ("oxi", "arretado") e ganha barbatanas nas pernas e nos braços quando se transforma.
NA LITERATURA
O filme de Spielberg foi inspirado em um livro do escritor Peter Benchley, mas o sentimento de terror despertado pelas criaturas submarinas já estava presente na literatura há séculos em obras como o poema The seasons (As estações), de James Thomson, de 1730. Os tubarões também surgem com fome no trágico trecho final do romance O velho e o mar (1952), de Ernest Hemingway, e no clássico fantástico Vinte mil léguas submarinas (1869), de Júlio Verne.
James Thomson, The seasons (1730):
"Aumentam ainda mais a tristeza dessas tempestades,
Suas mandíbulas horrivelmente armadas com triplo destino,
Aqui reside o tubarão medonho. Atraído pelo cheiro
Das multidões fumegantes, de doenças rançosas, e morte"
Ernest Hemingway, O velho e o mar (1952):
"O tubarão não era acidental. Viera de muito fundo, ao dispersar-se no mar a escura nuvem de sangue. Ascendera tão rapidamente e tão absolutamente sem cautelas, que abriu a superfície das águas azuis e apareceu ao sol. Caiu depois no mar e farejou e começou a nadar na esteira do esquife e do peixe."
Júlio Verne, Vinte mil léguas submarinas (1869):
"Tanto quanto o homem, a fera precisava matar o seu inimigo, para continuar vivendo. Vi as mandíbulas do tubarão se abrirem desmedidamente, e ia cerrando os olhos para não vê-las se fecharem sobre o corpo do Capitão Nemo quando Ned Land atacou com o seu arpão. Cravou-o certeiramente no coração do monstro! As águas ficaram impregnadas de uma massa de sangue e agitaram-se mais revoltas com os movimentos do esqualo. Era o estertor da fera vencida pelo homem."
NA REALIDADE
Em Pernambuco, desde 1992, já foram registrados pelo menos 59 ataques e 24 mortes sobretudo na praia de Boa Viagem e nos arredores (Olinda, Paulista, Jaboatão dos Guararapes e Cabo de Santo Agostinho). Cientistas atribuem as ocorrências a um desequilíbrio ambiental que pode ter sido provocado pela construção do Porto de Suape (principal hipótese), pela destruição de manguezais ou pela poluição das águas do mar e dos rios.